Sobre a Sobremodernidade

Lá vai mais um post que escrevi para o blog da Pós-Graduação da Cásper Líbero. É sobre Marc Augé e o conceito de Sobremodernidade.

É um debate acadêmico infindável a definição dos limites da Modernidade. Modernidade, Pós-Modernidade, Hipermodernidade, Sobremodernidade, muitos são os conceitos que tentam dar conta da complexidade contemporânea. Marc Augé, etnólogo francês, é o responsável por essa última denominação, baseada na teoria de que o tempo presente vive a lógica dos excessos. No texto “Sobremodernidade: do mundo tecnológico de hoje ao desafio essencial do amanhã”, o autor pontua três excessos característicos da Sobremodernidade: da informação, das imagens e do individualismo. Outros acadêmicos também observam o mesmo. O geógrafo Milton Santos aponta que a época atual é marcada pela tirania do dinheiro e da informação. A ensaísta argentina Beatriz Sarlo trata da enorme quantidade de imagens veiculadas e o fenômeno do zapping. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman faz referência ao individualismo quando fala sobre fluidez e o derretimento das relações sociais e da capacidade de se abdicar de planos individuais em prol de um bem coletivo. O termo Sobremodernidade – o excesso de Modernidade – parece abarcar de maneira consistente parte da conjuntura de hoje.

Augé mostra que, para analisar as mudanças em curso, deve-se considerar três aspectos: a Sobremodernidade, ligada ao tempo, os não-lugares, referentes ao espaço, e o virtual, relacionado à imagem. A Sobremodernidade, como exposta acima, cuida do excesso de Modernidade; os não-lugares se constituem como inúmeras localidades onde não existe a possibilidade de leitura da identidade, das relações entre indivíduo e território, da História; já o virtual está conectado à avalanche de imagens e ao esquecimento. Algo interessante a se destacar na questão da Sobremodernidade é que esta não determina o fim da Modernidade para início de um novo paradigma. A Sobremodernidade se encaixa como a própria Modernidade em si, porém excessiva. Outro ponto importante é a constatação das distintas temporalidades em que se encontram os lugares em relação à Modernidade ou Sobremodernidade e a interdependência entre eles, já comentada também pelo norte-americano Benjamin Barber.

O etnólogo também observa brilhantemente o reino do senso comum nas opiniões em geral. Na Sobremodernidade, as opiniões podem ser bastante induzidas, mas em tempos de forte mito de fim da ideologia, aquelas são percebidas como pessoais, a ilusão das opiniões pessoais. Os indivíduos se negariam a ter obrigações intelectuais – afinal, pensar exige bastante esforço -, daí a proliferação de “ideologias” “próprias”, “holísticas”. Assim, “…o mercado ideológico se equipara então a um self-service, no qual cada indivíduo pode prover-se com peças soltas para ensamblar sua própria cosmologia e ter a sensação de pensar por si próprio.” Uma condição alienada.

“Não sabemos muito bem por onde vamos, mas vamos e cada vez mais rápido.”

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Um comentário sobre “Sobre a Sobremodernidade

  1. Valéria

    Tenho a impressão que é mais fácil analisar o tempo fora do tempo, examinar e ser parte do exame torna as coisas um pouco complicadas demais. Por outro lado, a visão da atualidade não depende de outros olhos nem da dúvida sobre a imparcialidade de determinados críticos e autores, mas, por isso mesmo, além da rapidez da pós-modernidade, claro, deve ser maior a tendência a estratificar períodos e movimentos… ou não. hahaha

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