Eu sobrevivi à Índia: parte II

Aqui está a segunda parte deste “manual” de sobrevivência à Índia. Primeira parte aqui.

10) Sujeira!

Não quero ser mais uma daquelas pessoas que só repete esse mantra, mas o fato é que a Índia é suja, sim. Padrões de limpeza e sujeira são culturais, o que consideramos limpo ou sujo depende de como somos socializados ou das condições materiais de vida, claro. A Índia se encaixa nessas duas categorias. Assim, a pobreza é um fator importante aqui. Por outro lado, pela questão cultural, desconfio que os indianos têm um “conceito” de sujeira bem mais elástico do que o dos brasileiros. Repito, a falta de infra-estrutura e pobreza é um fator decisivo, logicamente, mas ainda assim vemos pessoas de classe média, com certas condições financeiras, que se sentam e põem as mãos no chão, no meio da rua. Note que as ruas de lá estão cheias de excremento (animal e às vezes humano) e lixo. Muitos comem com as mãos, algo cultural também, mas por vezes as mãos não estão tão limpas assim. Bem, tudo depende da nossa idéia de sujo e limpo. Alguém que entrasse agora mesmo onde moro, acharia que meus conceitos também são elásticos.

A sujeira das ruas e estações de trem é muito óbvia. Os indianos comuns simplesmente jogam qualquer embalagem/restos/lixo no meio da rua. Uma vez, em um trem, alguém percebeu que eu e Erik estávamos atrapalhados com o nosso lixo. Tínhamos acabado de comer e não sabíamos onde guardar nem descartar os guardanapos e pratinhos de papel. Um indiano, muito gentil, os “arrancou” de nossas mãos e simplesmente arremessou tudo pela janela, sem cerimônias. Depois sorriu simpaticamente, pois havia resolvido o nosso problema. Eu e Erik, civilizados pelo ocidente, não sabíamos muito o que dizer. Só sorrir. É importante frisar que as latas de lixo são raras por lá.

Varanasi, Uttar Pradesh, Índia

11) Prepare-se para a mistura do novo com o velho.

A Índia se encontra no mesmo processo de globalização, mas ainda assim guarda muitas características próprias. Você realmente se sente em outra civilização. Ao menos até se avistar um McDonald’s.

Vrindávana, Uttar Pradesh, Índia

12) Prepare-se para a falta de infra-estrutura.

A pobreza e a falta de desenvolvimento fazem com que a infra-estrutura seja precária. Se você for visitar a Índia de verdade, andar pelas ruas, e não se trancar em um resort de luxo, a falta de estrutura vai te deixar à beira de um ataque. Principalmente porque isso se combina com um “jeitinho indiano” parecido com o brasileiro. Assim, o recepcionista de uma hospedaria ou hotel pode te dizer que sim, há água quente nos chuveiros. Depois que você aceita se hospedar por lá, você descobre que na verdade haverá alguma obra na casa vizinha e a água quente estará disponível por apenas meia hora por dia. Ou nunca mesmo.

A luz falta em alguns lugares, ou não há iluminação mesmo.

Ninguém ouviu falar das Metas do Milênio aqui. Bodhgaya, Bihar, Índia

13) Prepare-se para muitos banhos frios.

Muitos hóteis (os simples, para turistas simples, gente) não têm água quente encanada. Ou não tem chuveiro e o banho é de balde mesmo. Ou não têm água. Ou tem apenas um fiozinho de água. Ou a caixa d`água é individual (por quarto) e apenas comporta a quantidade de água para um banho ocidental.

Aqui o banho é no rio mesmo. Khajuraho, Madhya Pradesh, Índia

14) O jeitinho indiano

Indianos geralmente não dizem que não sabem algo. Eles simplesmente respondem algo quando se pergunta qualquer coisa. Pode estar certo ou errado. Eles são muito prestativos e solidários, então querem ajudar, mesmo que uma resposta errada atrapalhe muito mais. Eles não são muito precisos e isso tem lados bons e ruins. Ao perguntar se algo de comer está fresco, por exemplo, você receber todo tipo de resposta, mas nenhuma é clara. Depois de comprar a comida, você percebe que está velha, estragada. O famoso balançar da cabeça só complica, pois significa “sim”, “não”, “talvez”, “não sei”, “sou simpático”, “pode ser”, “você não é inimigo” etc.

Jaipur, Rajastão, Índia

15) Tudo já passou da validade ou está meio alterado.

No exemplo do item 14, a comida estava estragada. Isso é porque muito dos produtos que são vendidos na rua e em lojinhas já passaram da validade. Sem exageros, quase sempre tudo o que comprei estava velho. Até em um livro que o Erik comprou em uma pequena livraria faltavam vinte páginas. E o livro veio embrulhado em plástico.

Nunca se sabe. Calcutá, Bengala Ocidental, Índia

16) Prepare-se para ver muitas pessoas com defeitos físicos.

É incrível a quantidade de gente afetada por doenças consideradas simples em países mais ricos, como a poliomielite. Muitos não tem algum dos membros. Muitos outros têm vitiligo. É comum ver essas pessoas com problemas físicos serem levadas em cima de estruturas de madeira, enquanto uma outra pessoa a puxa e pede esmolas, um tanto espetacular e muito chocante e triste.

Varanasi, Uttar Pradesh, Índia


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10 comentários sobre “Eu sobrevivi à Índia: parte II

  1. Mais curiosidades sobre o “mundo” que é a Índia… Bastante interessante os pontos de vista, e as fotos conseguem passar uma boa idéia do que descreve.
    Fotos belíssimas, na verdade sempre achei beleza no simples, no “desmontado”, no desconectado e até no “olhar” triste da cena.
    Gostei da que vc está comendo e tem um cachorro junto. Gostei das que mostram também cenas da cidade. Legais as fotografias!

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  2. Lou

    Camis, suas fotos estão maravilhosas! Você tem um olhar jornalístico pra fotografia =)
    A sujeira, falta de infraestrutura e água quente deve ser muito estressante mesmo.

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  3. Lou

    Camis, eu adorei esse estilo de post enumerando coisas. Vou roubar a idéia e usar no meu blog também. Fica bem mais fácil de descrever lugares =)

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  4. Pingback: Eu sobrevivi à Índia: parte III « ✈

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