Eu sobrevivi à Índia: parte IV

Aqui está a quarta parte deste “manual” de sobrevivência à Índia. Terceira parte aqui.

23) Acostume-se a ser encarado.

Os indianos parecem não ter problemas em encarar uns aos outros ou os turistas. Não é aquele encarar discreto, quando o fruto de tanta curiosidade percebe os olhares e os curiosos viram o rosto para o outro lado discretamente. Não. É um encarar persistente, irritante, difícil e longo. Além de não terem vergonha de encarar – é algo bem natural, a noção de espaço individual é diferente na Índia. As pessoas não são tão neuróticas quanto muitos ocidentais e seu repetido mantra  de invasão de espaço, mas por outro lado são o extremo oposto: sem noção, te encaram a 30 cm de distância. Bem perto. É muito desconfortável. Muito desse comportamento de deve ao fato de que muitas pessoas, principalmente em áreas simples, não estão acostumadas a verem turistas. Isso dá para entender bem, lógico.

O que nos leva ao próximo tópico:

24) Meninas, preparem-se para ser encaradas em dobro.

A maneira como um homem e uma mulher vivenciam uma viagem pela Índia é bem distinta. As portas e sorrisos estão sempre abertos aos homens. À maioria das mulheres turistas, restam os olhares indiscretos, desconcertantes, as charadas e o apalpamento indevido. Sim, aconteceu comigo bem mais do que uma vez. Eu fui até perseguida dentro do mar em Goa.

Eu fui perseguida no mar de Palolem, Goa, Índia.

O que nos leva ao próximo tópico:

25) Meninas, há muitas chances de apalpamento indevido.

Como relatado acima, aconteceu mais de uma vez comigo. Os homens geralmente se aproveitam de situações onde há muita gente, assim desaparecem impunemente no meio da multidão. Senti mãos nos meus quadris e por aí vai. Também fui apalpada quando estava andando de rickshaw. O fato de estar acompanhada não mudou em nada a atitude de muitos homens, que continuavam a ser muito irritantes e desrespeitosos, a ponto de até um elemento ter se masturbado em frente a um restaurante onde eu e Erik jantávamos, enquanto me enviava beijos do meio da rua escura. Isto não é brincadeira e não quero inculcar terror nas mentes das viajantes do sexo feminino, mas preparem-se para um mundo onde as relações de gênero (pelo menos no que concerne as turistas) são complicadas.

Eu senti umas mãos no meio dessa multidão em Calcutá, Bengala Ocidental, Índia.

O que nos leva ao próximo tópico:

26) Meninas, comprem calças estilo alladin.

Eu acho um absurdo raciocínios do tipo “não quer ser estuprada, então não use mini-saias”. Participantes da Marcha das Vadias que o digam. Mas, infelizmente, em um país onde muitas mulheres se vestem tradicionalmente e usam sáris, não dá para desfilar modelitos reveladores. É um saco, uma dor de cabeça. Além do mais, como já apresentado por aqui, a Índia não é muito limpa e muitas hospedarias não têm máquinas de lavar roupa, nem água suficiente, nem sabão… A lavagem não é sempre das melhores. Assim, é melhor usar roupas simples, confortáveis e não muito quentes.  O mesmo vale para os homens, na verdade.

Calças alladin. Khajuraho, Madhya Pradesh, Índia

27) Não leve roupas muito boas.

Muitas roupas serão perdidas ou se estragarão mesmo.

Camiseta e calça alladin de cinco reais comprada em Calcutá, Bengala Ocidental, Índia.

28) Prepare respostas às perguntas:

Where are you from? (“De onde você é?”)

How long in India? (“Há quanto tempo está viajando pela Índia?”)

First time in India? (“Primeira vez na Índia?” – esta pode ter intenção maliciosa, como quando comerciantes/guias/motoristas de rickshaw querem ter uma idéia mais clara se podem ou não tentar te arrancar um pouco mais de grana ou te levar a lugares que você não queria ir).

Do you like it? (“Você está gostando?”)

Age? (“Idade?”)

Name? (“Nome?”)

Married? (“Casado (a)?”)

How many children? (“Quantos filhos?”)

What do you do? (“O que você faz?”)

Por vezes até perguntam o quanto você ganha.

Prepare as respostas a esse questionário de antemão, assim você não precisará pensar todas as vezes que cada cidadão indiano te perguntar absolutamente as mesmas coisas.

29) Assista a TV indiana/filmes de Bollywood.

Os programas são imperdíveis. Muitos filmes de Bollywood, séries, programas de auditório e noticiários que repetem as mesmas coisas a cada 5 minutos. É bem interessante ver o que oferecem ao público.

Este assisti no cinema de Jaipur, Rajastão, Índia

30) Não há muito álcool.

Não se encontra cerveja assim descaradamente. Muitos segmentos religiosos condenam a bebida alcoólica, assim os indianos não bebem em público, com exceção de Goa e Diu (e talvez outros estados onde não estivemos). As cervejas que você vai encontrar são ruins e nada baratas, mas dá para matar a sede de vez em quando.

Kingfisher, cerveja mais comum na Índia

Termina aqui a série de dicas de sobrevivência à Índia. Agora começaremos a viagem pelas cidades visitadas. A primeira é Calcutá.

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6 comentários sobre “Eu sobrevivi à Índia: parte IV

  1. Muitas realidades e impressões chocantes sobre a Índia, que na verdade, é um pais interessantíssimo de se conhecer por si só.
    Só soube de algumas coisas que aconteceram com vcs dois por aqui mesmo, e me assustei com o que aconteceu contigo, Camila. Que diferença cultural! Quanta diferença comportamental!
    Foram no cinema?! Muito diferente dos que temos aqui?
    As suas duas fotos ficaram muito legais! Adorei a calça preta. Só 5 reais? Pq não comprou uma pra mim? Eu ia amaaaaaar!

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    1. É verdade, a Índia é um país interessantíssimo. Eu acho que te contei essas estórias do comportamento masculino quando estava por aí. É muita diferença mesmo!
      Sim, fomos a um cinema bem famoso em Jaipur. As pessoas lotam as salas no domingo, é a diversão mais barata, acho. Os indianos adoram filmes, não é à toa que têm sua própria indústria (Bollywood). As pessoas gritam, dão risada, é muito engraçado ir ao cinema na Índia. Eles não ficam quietos no escuro. Eles reagem ao que acontece na tela o tempo todo.
      Eu não acho que você gostaria da calça preta, é um saco de batatas, hahaha…

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    1. Hehee, que bom que vai usar as dicas. Aí posso dar mais dicas ainda. 🙂 Há muito mais ainda que quero postar dos lugares que fui na Índia, principalmente fotos, que falam por si só. Mas estou tão atrasada nos posts… Não dá tempo!

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  2. É impossível não se chocar um pouquinho com essa realidade. Apesar de nunca ter desejado conhecer a Índia, achei o seu “guia de sobrevivência” muito interessante e útil. Bem diferente daqueles guias que a gente compra em livrarias, cheios de meias verdades.
    Enfim, acho que depois da sua viagem à Inglaterra, poderia rolar um livro “How to Survive by Camila”.

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    1. Hahahahahahah!
      Que bom que gostou, obrigado! Essa era a ideia mesmo, tentar passar algumas das impressões que tive por lá, sem ser muito politicamente correta como os guias de livraria. Afinal, nada melhor do que escutar alguém que já teve a experiência, não? Pensei nas pessoas que acabassem, de alguma maneira, acessando este blog à procura de informações sobre a Índia. Aí cheguei à conclusão de que era necessário mencionar essas coisas. Só fotinho bonita de “terras exóticas” ao estilo national geographic, como muitos blogs de viagem postam, não dão uma ideia muito apurada do que é estar nesses lugares.
      Eu sei que é impossível não se chocar, eu me choquei bastante, hehe… 😉

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