Cenas de Varanasi II: o ghat das cremações a céu aberto

Segunda parte da série de posts sobre Varanasi. A primeira parte está aqui.

Uma das avenidas principais é bastante movimentada e cheia de comércio:

Feira

Erik resolveu experimentar uma sessão de massagem ayurvedica. O detalhe é que o tratamento foi no meio da rua. Erik não gostou muito:

Massagem ayurvedica

Dá para chegar a algum ghat a partir das inúmeras ruelas laterais:

Aqui chegamos ao ghat mais interessante de Varanasi:

Manikarnika Ghat (Burning Ghat)

Há dois ghats onde ocorrem as cremações a céu aberto e este é o principal. Os hindus acreditam que é muitíssimo auspicioso ser cremado neste ghat. O lançar das cinzas no Ganges proporciona a libertação do ciclo da vida e da morte. Segundo a Wikipedia, é um dos ghats mais antigos de Varanasi.

Flores de lótus de verdade

Mas como é a experiência de visitar este ghat?

Foi muitíssimo interessante, talvez uma das melhores experiências durante toda a viagem. Mas, devemos lembrar que se trata da Índia e há sempre um esqueminha envolvido. Quando os turistas chegam perto do ghat, são conduzidos por rapazes muito simpáticos que se mostram bem prestativos. Eles te guiam por dentro de um prédio pequeno até o topo, de onde é possível observar as cremações. Estas ocorrem em um deck elevado e somente a família do falecido(a) pode estar lá. Esse prédio, para onde todos os turistas são conduzidos, é onde “moram” vários idosos que apenas esperam para morrer. Sério.

Os rapazes prestativos são, na verdade, guias. O nosso acabou nos fazendo falar com uma senhora que representava os idosos moradores do prediozinho, os que esperam a morte. De maneira não tanto sutil, pediu uma doação em nome da melhora do meu carma. É incrível como essas chantagens emocionais quase funcionam nesses momentos. Logo comecei a pensar que eu também queria escapar da roda da vida e da morte.Eu e Erik acabamos doando um dinheirinho. Fica bem difícil negar ajuda quando você se vê rodeado de idosos deitados em mantas esperando a morte. Diz-se que esse dinheiro é para pagar a madeira da cremação. Madeira é caro e muitos quilos são necessários para queimar um corpo. Há madeiras mais nobres que outras. Havia locais para pesagem da madeira.

Vista da laje do prédio dos idosos moribundos

As toras de madeira jazem ao redor:

O guia nos explicou que todos devem ser cremados primeiro, para depois as cinzas serem jogadas no Ganges. As exceções são: mulheres grávidas, vacas e pessoas que morreram por picada de cobra. Estes são considerados puros. Aí o corpo é lançado inteiro no rio. Eu vi um boiando à distância.

Na laje do prédio dos moribundos, a fumaça das cremações incomoda, principalmente quando o vento sopra a favor. Voa cinzas em cima de todos, tinha que cobrir o nariz com um lenço de vez em quando. Tivemos a “sorte” de estar na laje quando um corpo chegou, todo embrulhado em tecidos coloridos. Foi colocado em cima de uma das oito fogueiras que queimam incessantemente. A pira é acendida e o corpo começa a queimar. É demorado, o corpo humano não queima tão fácil. Vi as pernas já descobertas e a cabeça tombando de lado. Inesquecível.

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8 comentários sobre “Cenas de Varanasi II: o ghat das cremações a céu aberto

  1. carolinecunha

    Maravilhoso! Gostei muito das fotos das ruas, algumas mostrando bem o mercado e as barracas com produtos. Quanto mais nos é mostrado a India, mais conseguimos absorver como tudo realmente é lá. As pessoas, algumas super interessantes.
    Fico imaginando as coisas que vc e Erik viveram lá, ver de perto, presenciar. São momentos que devem ficar guardados pra sempre de maneira um tanto peculiar, acredito.
    A parte que mostra o rito das cremações foi outra bastante curiosa de ver e aprender um pouquinho.
    Ri de verdade com a foto do Erik tomando sua massagem! Haha. Os homens apertando ele, descalços, todos mulanbentos… e ele de olhos fechados, com os tênis jogados, deitado em panos imundos! Tudo acontecendo para quem quisesse ver! Hahaha

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    1. Heheh, o Erik me disse que não gostou, não. Queria que acabasse logo, hehe…
      Sim, Carol, as impressões säo muito fortes e vão ficar impressas para sempre na nossa memória. Fico bem contente que dá para ter essa impressão de que você está vendo as coisas como são por lá. É para isso mesmo que faco esses posts assim detalhados. Mas olha, a cremacão foi uma experiência do outro mundo mesmo, hehehe…

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  2. Rejane Freire

    Olá Camila! Vc lembra de mim, Rejane?! Eu estive em Linkoping logo que vc foi p Ásia.Bom mas depois te envio um e-mail contando tudo o que aconteceu!
    Nunca deixo d ler seus posts que adorooooo demais,são muito instigantes,o problema é que todas as vezes quero deixar um comentário legal mas sempre deixo p depois e nunca escrevo!
    Através das fotos e d suas palavras,nos faz viajar pelos lugares e coisas que vc fez, é como se pudesse vivenciar o mesmo que vc.
    A índia é realmente um país intrigante, com seu misticismo,costumes tão diferentes dos nossos,onde o descaso e a providência caminham juntos.Achei tão bonito o respeito pelos animais e é lamentável a má influência do ocidente,notado no trecho sobre o guia chantagista.
    O bom é que pude absorver muitas coisas boas dessa parte da sua viagem e poupada de algumas paripesias que vc deve ter passado por lá.
    Parabêns e continue sempre enrriquecendo nossos conhecimentos com seus posts maravilhosos!
    Beijo grande!:)

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    1. Oi Rejane!
      Claro que sim, claro que lembro!
      Eu li este comentário por último, então você vai notar que escrevi em um outro post “quanto tempo…!”, hehe…
      Adoro a sua presença e palavras por aqui. Fiquei super tocada e muito feliz por este comentário, você não imagina o que isso significa para mim, de verdade! Faço o blog com todo o carinho e comentários assim são a maior recompensa. Acabei de contar para o Erik sobre o que você escreveu. 🙂
      Fico muito feliz que dê para ter essa ideia de como são os lugares e as experiências. Esse é o meu objetivo em relação aos posts de viagem, fazer com que as pessoas vejam o que eu vi. E saibam o que eu ando fazendo, né? hehehe…
      Gostei do seu comentário sobre a Índia, é bem isso mesmo, o descaso e a providência caminham juntos.
      Estou bem curiosa para saber das suas aventuras em Linköping! 😉
      Beijão!

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    1. Hi!

      I am glad you enjoyed! India was a very interesting experience, very intense. I spent 3 months travelling around. You can take pictures all the time, there’s so much to see!

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  3. Uau! Na verdade nem sei o que escrever. Imagino que presenciar esta cerimônia tenha sido algo único. Nossa como não se comover e doar dinheiro para velhinhos que esperam a morte? E impossível esquecer tudo isso… Beijos.

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  4. Pingback: Cenas de Varanasi III « ✈

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