Visita noturna a um dos lugares mais mal-assombrados do mundo

A cidade de Edimburgo é cheia de histórias de terror. Nem poderia ser diferente, já que lembranças da Idade Média estão por toda parte. Creio que o mundo era bem diferente nessa época: batalhas sangrentas com menos tecnologia, péssimas condições de higiene, doenças por toda parte, um cristianismo escravizador e por aí adiante. Reclamar da modernidade e da civilização ocidental é um grande passatempo meu, mas tenho que reconhecer que mudamos em certos aspectos.

Assim que cheguei à Royal Mile, reparei logo nos diversos cartazes oferencendo ghost tours (tour fantasmagórico ou algo assim). Pelo número de placas, imaginei que deveria ser uma atividade turística de sucesso. Eu adoro uma aventura, desde pequena gostava de fazer meus passeios de bicicleta até bem longe, onde meus pais não deixavam ir. Logo me interessei, ainda mais pelas figuras assustadoras nos pôsteres. Eu e Erik decidimos então marcar a nossa ghost tour, uma tour dupla: pelas antigas câmaras subterrâneas (underground city) e pelo cemitério da igreja Greyfriars (Greyfriars Kirkyard), um dos lugares mais mal-assombrados do mundo! E, claro, o passeio é noturno. Nós nos encontramos com o grupo em frente à igreja Tron, na Royal Mile. Havia cerca de umas 15, 20 pessoas, mais o guia. Eu e Erik fomos preparados para enfrentar o frio e a umidade da capital escocesa: compramos duas mini-garrafas de whisky para beber ao longo da expedição. O tour começa pela cidade subterrânea.

Underground city

É conhecida como Edinburgh Vaults, ou South Bridge Vaults. Trata-se de uma rede de câmaras subterrâneas formadas nos dezenove arcos da South Bridge (ponte) em Edimburgo. Apenas um desses arcos é visível na rua, o de Cowgate, bem ao lado do hostel. Os outros 18 estão “cobertos”, “escondidos”, por prédios.  As câmaras datam de 1788 e foram inicialmente planejadas para o comércio, mas a construção foi precária e o isolamento da água não funcionou, havendo inundações e infiltramento. Assim, devido às péssimas condições do ar e de úmidade dessas câmaras, os homens de negócios as abandonaram e no lugar, claro, vieram as pessoas miseráveis que não tinham onde morar na época da Revolução Industrial. Houve a favelização dessa área de Edimburgo, no arco Cowgate da South Bridge. De acordo com o nosso guia no passeio, sempre houve problemas seríssimos de superpopulação. Serial killers começaram a agir, matando pessoas para depois venderem os corpos que posteriormente seriam usados em experimentos médicos. Muitos corpos, dizem, eram escondidos nessas câmaras. Serial killers:

Serial killers

As condições da “favela” eram terríveis, não havia luz natural, nem água ou esgoto encanados, e a circulação do ar era mínina. Imaginem a energia do lugar. Foi somente em 1985 que se descobriu que pessoas haviam morado lá.

Segui à pé com o grupo até a entrada dessas câmaras subterrâneas. O guia era ótimo, engraçado, explicou um pouco da história de Edimburgo e  muitas outras mais para o lado sobrenatural. Como muitas pessoas morreram nessas câmaras, há relatos de acontecimentos do outro mundo; luzes, vozes, calafrios, correntes de ar gelado, pessoas que desmaiam…

Abaixo, uma parte dessa ponte. O grupo está caminhando à direita. Reparem como a ponte foi coberta por prédios dos dois lados:

DSC07500

Entrada da cidade subterrânea (uma porta nesse prédio):

DSC07507

O guia conta histórias de terror antes de entrarmos nas câmaras. Ele era meio parecido com o Evan McGregor e tinha um sotaque charmoso.

DSC07505

Finalmente descemos escadarias, já dentro do prédio, até chegarmos às câmaras mal-assombradas. O clima era úmido, um pouco fresco. Tudo é silencioso, só se ouve a voz do guia e só se vê a luz da sua lanterna. Em um dado momento, ele pergunta se queremos que ele apague a luz, já que fenômenos sobrenaturais não acontecem quando os estamos assistindo, olhando. Juro que eu acho que isso faz todo o sentido. O guia estuda física quântica e explicou muitos fenômenos de partículas de luz, além de outros não explicáveis. É claro que eu logo disse “Yeah!” quando ele perguntou se, então, deveria apagar a lanterna. Nada aconteceu, mas muito antes disso, eu senti uma golfada de ar frio e alguém que me cutucou no braço. Quanto eu virei e perguntei ao Erik, “O que foi?”, ele não entendeu. Não havia sido ele que beliscou o meu braço.

DSC07510

DSC07511

Erik escuta o guia:

DSC07509

A segunda parte do tour é entrar na Covenanters Prison, um local pertencente ao cemitério dos Greyfriars. Este é definitivamente um dos lugares mais mal-assombrados do mundo, já mostrado em vários programas de TV. Qual é a história?

Mackenzie Poltergeist

A história é complicadíssima, não dá para explicar tudo. Os Covenanters eram um movimento presbiteriano escocês que tiveram papel importante na história desse país, além de na da Irlanda e Inglaterra, no século XVII.  Houve várias guerras, tudo deu errado para esse movimento. Depois da Restauração (não me peçam para explicar o que foi isso), em torno de 18.000 Covenanters morreram. George Mackenzie, representante da justiça e da coroa, elite do sistema, era o demônio em pessoa e mandou prender 1.200 Covenanters em um terreno adjacente ao da igreja e do cemitério. Este terreno é hoje conhecido como a Covenanter’s Prison, justamente essa nossa segunda parte da tour mal-assombrada. Os 1.200 que ali comeram o pão que esse diabo amassou morreram sob terríveis condições. Pela falta de humanidade no tratamento dos prisioneiros – algumas histórias contadas pelo guia afirmam que os prisioneiros ficaram deitados de cara na lama no frio da Escócia por meses até morrer, se levantassem seriam fuzilados – George Mackenzie ficou conhecido como Bloody Mackenzie (Mackenzie sanguinário). Ele morreu, seu mausoléu está nesse mesmo cemitério e aparentemente, desde que um mendigo invadiu sua tumba em 1999, Mackenzie voltou dos infernos para assombrar as pessoas que visitam a Covenanters Prison. O tom aqui é meio pueril, mas esse fenômeno de poltergeist é levado à sério e muitas pessoas já reportaram terem sofrido ataques terríveis no cemitério. Alguns morreram lá.

Depois de sairmos das câmaras, o grupo se dirigiu para a igreja dos Greyfriars com seu cemitérios a Covenanters Prison. Estava escuro, muito úmido e um pouco frio, leia-se +1 C com muita umidade mesmo. Este é o clímax do passeio. O guia tem acesso à prisão que, na verdade, fica trancada à cadeado o tempo todo. Visitantes comuns não podem entrar. Quando os portões ainda estão fechados, o guia termina de explicar a história de Mackenzie e dos ataques a visitantes e nos alerta que coisas muito reais podem acontecer durante a visita, desde arranhões até ser derrubado e arrastado pelo chão. O guia abre o portão e entramos na prisão, um terreno com pequenas salas abertas, tipo mausoléus sem caixões dentro. Entramos em um, o guia conta mais histórias e há momentos de silêncio.

Eu sei que o que vou contar daqui em diante será considerado como supertição, auto-sugestão ou imaginação. Nem eu mesma consigo acreditar totalmente, mas sei que senti algumas coisas distintas enquanto dentro dessa “sala”. O clima era pesadíssimo, a única memória que tenho de algo assim foi quando visitei uma cela do pavilhão 9 um pouco antes de o Carandiru ser demolido. Havia uma bíblia com salmos sobre a perdição aberta nessa cela. Na cela de Edimburgo, o clima era o mesmo, muito frígido, um insustentável peso do ar gelado. Enquanto o guia continuava a falar, eu senti algumas golfadas de ar frio e meus braços começaram a pesar muito, como se fossem puxados para baixo – não foi a primeira vez que senti isso tão pouco, mas essa é outra história. Senti meus antebraços apertados, pressionados. Sem contar o impulso de deixar o corpo balançar para frente e para trás. Eu sei o que algumas pessoas com certas crenças vão concluir. Aqui eu não deixei nada muito claro, apenas queria contar o que acho que senti. O passeio acaba aí. Foi curioso, vale à pena, é algo a se fazer em Edimburgo.

Mais cedo, talvez no mesmo dia já não me lembro, eu e Erik visitamos o cemitério dos Greyfriars por coincidência, o encontramos sem querer. Ficava tão perto do hostel.

Greyfriars Kirkyard

Como era em 1647:

Greyfriars kirkyard 1647 wikipedia

Como é hoje (entrada):

DSC07373

Havia umas coisas meio macabras:

DSC07376

Abaixo, esse mausoléu grande ao centro é o de George Mackenzie:

DSC07377

DSC07379

DSC07381

DSC07382

DSC07388

DSC07392

Castelo de Edimburgo ao fundo:

DSC07391

DSC07390

Termina aqui também a visita à Escócia. Próxima parada: Londres.

PS: eu gosto de contar histórias, mas gosto de escutar também. Alguém tem alguma história de terror para contar?

PS2: as informações “históricas” foram tiradas da wikipedia e da minha memória do que o guia contou. Os links com as fontes estão espalhados pelo post.

Anúncios

14 comentários sobre “Visita noturna a um dos lugares mais mal-assombrados do mundo

  1. Fábio Paim

    Meu, que saudades que me bateu desse lugar. Fiz o passeio noturno por ae, mas com chuva, e subimos o morro que tem o “mini parthenon”… foi bem divertido…
    E sobre os covenanters, muitos morreram afogados na lama, pois se levantassem a cara para respirar, matavam a pessoa ao lado. Punk né… mas sou louco pra voltar à escócia (talvez o preço do whisky tenha a ver com isso… hahaha)

    Curtir

    1. Fábio! Que legal te ver por aqui, apareça mais vezes. 🙂

      Eu não fui a esse parthenon, o passeio acabou depois da prisão dos Covenanters mesmo. Eu me lembro dessa história, achei tão diabólico… O guia falou que as pessoas passaram meses ali, morrendo de fome e de frio (deve ter sido semanas).

      Eu também quero voltar e ver outros lugares. Apesar de que não me importaria de voltar a Edimburgo mesmo, é uma cidade tão legal.

      À propósito, Fábio, eu amei a Noruega. Não está com saudades destes lados, não?

      Curtir

  2. Fábio Paim

    Uma história muito boa, é a da “Half-hanged Mary”, ou algo assim, você ouviu essa? Ela foi condenada à morte por enforcamento,e foi enforcada. Só que de alguma forma ela acordou na carroça que estava levando seu corpo pro cemitério. Os políticos não sabiam o que fazer e acabaram decidindo que ela estava livre (foi condenada a morte por enforcamento, foi enforcada, um médico confirmou a morte e depois ela acordou, então havia pago sua pena). E depois disso ela sempre falava pros próximos a serem enforcados “relaxa, eu fui enforcada e estou aqui, feliz da vida”

    Curtir

    1. Hehehehe, boa! Não, eu não ouvi lá, mas achei essa história na internet, enquanto ía atrás da história do Mackenzie. Acho bem possível acontecer, né? Ela devia ter um pescoço resistente, hehe…

      Curtir

  3. Que medo! hahaha! Adorei este post. É muito bom saber das suas sensações, ver como realmente se sentiu. Adorei as histórias, as fotos sombrias! Apesar de ficar com medinho, se um dia for a Edimburgo, quero muito fazer este passeio! Beijocas.

    Curtir

    1. Obrigado, Day! Estou tentando conscientemente colocar mais impressões pessoais nos posts que, afinal, é o que mais interessa.
      Tem que fazer este passeio, é divertido, uma boa maneira de conhecer mais sobre a história de Edimburgo ao invés de ler um guia chato.

      Curtir

  4. Camis amei esse post! Além de ser muito interessante (como sempre) está bem diferente e original. E o toque pessoal quando vc relatou o que sentiu melhorou ainda mais!
    Achei A SUA CARA ter pedido pro guia apagar a lanterna huahauah aposto que vc foi a primeirona! Eu ia gostar deste passeio, mas teria que ser arrastada pois sou muito medrosa!!!
    Muito pode se dizer sobre fenômenos naturais e sobre o que vc sentiu. Mas é tudo hipótese pois não temos certeza de muita coisa quando se trata de “vida após a morte”.
    Sei que cada um tem sua religião e suas crenças, mas eu acredito muito em energia – positiva e negativa. Esse lugar teve muita dor e sofrimento, por sabe lá Deus quanto tempo. O clima deve ser mesmo muito pesado. Eu acho que algumas pessoas são mais sensíveis que outras então acabam sentindo os efeitos desta energia ruim.
    Mas essa é a minha opinião.
    Eu tive duas experiências com o sobrenatural (nem de longe tão assustadoras quanto a sua!). A primeira foi quando eu era criança, mas essa acho melhor contar pessoalmente. A outra foi depois de adulta, na primeira vez que fui ao Memorial em Santos. eu não tenho nenhum parente lá, mas qdo entrei pela primeira vez, comecei a chorar desesperadamente e não conseguia parar. só melhorei depois que saí.

    Curtir

    1. Nossa Pam, que história essa do Memorial… Mas sabe, das poucas vezes que fui lá, senti um clima muito pesado. Não sei, é meio isolado, perto do morro, apesar de ter casas em volta. Pode ser que tenha sido só minha impressão, pois eu tenho memórias tristes de lá – o velório do meu avô paterno, o primeiro dos avós que se foi.
      A única vez que fui lá e não senti nada foi um dia às 4 da manhã, apenas com a minha irmã. Mas deve ter sido porque eu estava muito bêbada.
      Ai, fiquei curiosíssima para saber a outra história sobre-natural. Não se esquece de contar quando eu estiver por aí.

      Curtir

  5. Não tenho palavras pra descrever o quanto AMEI este post! Todo curioso, bem detalhado, bemd escrito, e o principal, cheio d efotos para ilustrar os diversos momentos e lugares que foram. Isso faz toda a diferença, pois nos coloca realmente junto de vcs. A gente consegue visualizar bem, de verdade, com bastante veracidade os locais.
    Ameiiiii que vcs dois “compraram os ingressos do medo”, e se embuíram destas aventuras únicas que fazemos na vida, e só que tem estas oportunidades, não devem perdê-las jamais! Que divertido! Fico imaginando o quanto alto vc disse: “Yeahh” pro guia, foi a primeirona mesmo, bem sem noção….hahahhaha e todo mundo, morrendo de medo.
    Ah, acredito em tudo que vc sentiu sim. Fico imaginando eu lá….ficaria por dias em estados alterados, tenho certeza. E vc sabe de toda a sua sensibilidade, né Camila?
    Adorei as fotos, uma a uma…que interessantes e quantas emoções vcs viveram hein?! Hahaha!
    Post rico em informações e detalhes, contando todas as estórias…. Parabéns!

    Curtir

    1. Obrigado Carol! 🙂

      HAHAHAH, ri demais quando você escreveu que ficaria por dias em “estados alterados”. Eu acho que isso é uma realidade sempre, não é não? Hauhauahua! 🙂 Tenho certeza que você ia ficar com os cabelos em pé mesmo.

      Como assim, sem noção? Heheh, só às vezes… 😉

      Pois é, você está certíssima, se você tem oportunidade de fazer algo, é melhor fazer mesmo, não pensar muito. A gente sempre se arrepende dessas economias burras, principalmente em viagens.

      Eu sabia que ia gostar bastante deste, estava esperando pela sua reação.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s