Mestrado em desenvolvimento internacional na Universidade de Lund – o que é isso?

É incrível que só esteja começando a escrever sobre o mestrado quando já estou no segundo semestre. Enfim. Eu já postei sobre as escolhas que fiz quando tive que fazer as inscrição no processo seletivo. Este post do passado é importante pois revela o que de fato eu queria fazer e a tensão inerente em fazer algo que não condiz totalmente com a sua visão de mundo.

Bom, eu estou cursando o Master of Science Programme in International Development and Management (LUMID) (Programa de Mestrado em Desenvolvimento Internacional e “Administração”). Esse programa de mestrado é voltado para pessoas que curtem a área de desenvolvimento internacional, coisa que eu não entendi bem quando me matriculei. Mas o que é “desenvolvimento internacional”?

Apesar de ser uma indústria importantíssima no mundo, nem a Wikipedia oferece uma página em Português sobre a área. É uma pena, pois os países do Sul deveriam saber o que, como e por que os países do Norte metem o bedelho nos do Sul. Desenvolvimento internacional, também chamado de desenvolvimento global, é uma área de estudos e uma indústria surgida no pós- Segunda Guerra e que divide o mundo em “países desenvolvidos” (ricos), “países em desenvolvimento” (eufemismo para pobres, com uma diferença considerável entre eles) e “os países menos desenvolvidos” (LDCs – least developed countries, os miseráveis). Se depender que quem responde a pergunta acima, a resposta pode ser bem diferente.

Desenvolvimento internacional lida com várias áreas como ajuda externa (recursos doados por países), governança, saúde, educação, redução da pobreza, igualdade de gênero, prevenção de desastres, infra-estrutura, economia, direitos humanos, meio-ambiente, ajuda humanitária e outras. Existem muitas organizações envolvidas na indústria do desenvolvimento, a maior e mais conhecida sendo as Nações Unidas. A maioria dos “países desenvolvidos” têm suas agências de desenvolvimento que trabalham com projetos e doam dinheiro (ajuda externa) aos “países em desenvolvimento”. Na Suécia, a agência é a SIDA. Hoje não são apenas os países mais ricos que atuam nessa área. O Brazil também tem sua agência, a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), à qual integra o Ministério das Relações Exteriores. O protagonismo do Brazil no cenário internacional tem crescido bastante, e, segundo o IPEA, o Brazil gastou um total de R$ 724 milhões em projetos de cooperação Sul-Sul em 2009.

A crítica ao “desenvolvimento” mainstream é bem contundente e situa essa área, no geral, como neocolonialismo contemporâneo ou imperialismo ocidental. É claro que isto é uma simplificação muito grande. Para quem quer saber mais sobre a crítica ao desenvolvimento, deve ler Encountering Development, de Arturo Escobar um antropólogo colombiano muito perspicaz.

Escrevi tudo isto só para as pessoas que lêem este blog terem uma ideia melhor do que venho estudando desde setembro do ano passado. Deve dar para perceber que ando bem crítica em relação a esta área. Não gosto da área em si; por outro lado, é tudo muito amplo, e gosto de certos assuntos da área. Além disso, gosto da possibilidade de poder trabalhar com algo com que eu me importo, um dos meus maiores desejos.

O primeiro curso, International Development Perspectives (Perspectivas do Desenvolvimento Internacional) durou de setembro a meados de dezembro de 2013. Tivemos etapas diferentes dentro do curso e estudamos as dimensões econômicas, sociais e políticas, além da UN Week (Semana ONU), uma semana de aulas com profissionais sênior da organização. O segundo curso, Theory of Science and Methods (Teoria da Ciência e Método), foi muito bom. Além de aprender mais sobre ciência de um ponto de vista filosófico, aprendemos também sobre métodos qualitativos e quantitativos de pesquisa. Esse curso durou de dezembro a janeiro.

O terceiro curso foi Development Organizations and Programme Management (Organizações “de desenvolvimento” e Gerenciamento de Programas). Tivemos uma parte deste curso em janeiro-fevereiro, e teremos o resto em junho. Bem chato. O quarto curso, Global Health (Saúde Global) foi um curso em saúde pública. Foi interessante aprender sobre epidemiologia, as doenças que afetam diferentes países de maneira distinta etc. O quinto curso, Sustainable Development and Natural Resource Management (Desenvolvimento Sustentável e Gestão de Recursos Naturais) acabou de terminar. É o que eu gosto de fato e com o que eu gostaria de trabalhar no futuro, principalmente na linha da ecologia política. EU já fiz um curso em desenvolvimento sustentável na Universidade de Linköping. O sexto curso acabou de começar, mas eu estou pulando o começo para prolongar as o descanso (merecido) de Páscoa. Chama-se Urban and Rural Development and Livelihoods (Desenvolvimento urbano e agrarário e meios de vida).

Este programa é bem competitivo, pois é difícil de entrar. O principal atrativo para quem está em frente à tela do computador tentando escolher um programa é a promessa de emprego na área. Na página do programa lê-se bem claramente que em torno de 70 a 80% dos alunos encontram um emprego na área em menos de um ano. Ao ver a lista de onde ex-alunos estão, parece bem interessante – várias agências da ONU, ONGs etc. O que eu realmente espero deste programa é que me permita trabalhar com questões que eu acho importantes.

A carga de trabalho dos cursos é bem pesada –  nem tanto na parte de conteúdo, que deixa a desejar por muitas vezes, mas na quantidade. É um paper atrás do outro, além de seminários, apresentações, projetos etc… É realmente quantidade acima de qualidade. Não dá tempo de ler, ler, ler e digerir o conteúdo. Por outro lado, acabamos aprendendo bastante em termos de escrita acadêmica, pesquisa e outras habilidades deste tipo, de tanto que trabalhamos. Eu tinha uma imagem muito diferente de um mestrado. Pensei que fosse algo bem mais independente, que eu tivesse bastante tempo livre para ler e ir atrás dos meus interesses. Mas este programa não é assim.

Há dois elementos que estressam bastante os alunos: estágio e tese. Temos que encontrar um estágio em alguma organização, preferencialmente em um país “em desenvolvimento”. O estágio deve durar de setembro a dezembro, em média, mas é lógico que essas datas mudam bastante. Assim, não sei onde estarei morando no próximo semestre, provavelmente em algum canto da América Latina. A tese também é motivo de stress, pois precisamos conectar tudo – o trabalho de campo da tese, no geral, deve ser feito no mesmo país. No momento, eu estou bem ocupada com todos os papers, tentando encontrar um estágio e pensando/lendo/debatendo possibilidades para a tese. Não vejo a hora de ter férias; todos estão bem cansados. Inclusive eu.

Não tenho muitas imagens da Universidade de Lund ainda, mas aproveito para mostrar a área da biblioteca e café da faculdade de letras, línguas e comunicação social (SOL). Eu passo por ali quase todos os dias e gosto de trabalhar lá.

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10 comentários sobre “Mestrado em desenvolvimento internacional na Universidade de Lund – o que é isso?

  1. Dayane Andrade

    Eu acredito que seu texto sobre o mestrado veio na hora certa. Agora você já tem uma opinião formada sobre o curso. Sabe os pontos fortes e fracos, o que realmente pode ou não aproveitar do que aprendeu.

    Estou feliz que tenha gostado de algumas coisas e que já esteja enxergando possibilidades de trabalho.

    Interessante esta questão do estágio! Está pensando em que país da AL? Estou curiosa pra saber sobre o que será sua tese.

    Parece bem tranquila a biblioteca, é ótimo ter um local de estudos assim.

    Uma pena mesmo não ter uma página da Wikipedia sobre o tema em português, mas quem sabe você arruma um tempo para fazer isso. Seria uma boa oportunidade de falar mais sobre.

    Adorei saber mais sobre este instigante assunto. Bom descanso de Páscoa e boa volta aos estudos, em breve.

    Beijos.

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    1. Oi Maíra!

      Não é fácil conseguir um estágio na ONU, mas também não é impossível. 🙂

      A primeira dica que eu posso te dar é para você criar um perfil no site de recursos humanos da ONU, o Inspira. Aí você manda o currículo para as vagas postadas. Não precisa perder muito tempo com essas vagas, pois um milhão de pessoas mandam currículo também, mas é bom mandar de qualquer jeito.

      A minha segunda dica é a mais importante, e acho que poucos sabem. A maneira mais efetiva de conseguir um estágio na ONU (e qualquer emprego, na verdade) é enviando uma carta de apresentação, por e-mail, diretamente para a pessoa responsável pela área onde você quer trabalhar/estagiar. Funciona muito. Eu tive várias respostas assim e quase consegui três estágios na ONU.

      Não tenha vergonha. Faz uma pesquisinha básica na Internet, descobre que agências da ONU você está interessada e em que áreas também. Aí é só descobrir o e-mail da pessoa responsável pela área. Descobrir o e-mail nem sempre é fácil, tem que ter paciência.

      Isso é uma das coisas mais importantes que eu aprendi sobre procurar emprego nos últimos anos.

      Abraços e boa sorte!

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