Sem-teto na Jamaica

Antes de continuar com a série sobre a Grécia e mostrar a ilha de Antíparos, trago o primeiro post sobre a temporada na Jamaica, terra de sol, suor, jerk, música e gente boa.

Cheguei à Jamaica no dia 08 de agosto, ou seja, há 25 dias. No dia 26 de agosto, depois de apenas 18 dias, fui expulsa da casa onde moro. Como consegui esta façanha ainda é um fato inexplicado, mas já fui expulsa de outros lugares antes, como escola e bares. Talvez a explicação seja que a dona da casa era uma louca ditadora.

A dona da casa, à qual vamos chamar de senhora S., é estrangeira e mora em Kingston já desde a década de 70. Segundo ela, sabe tudo. Na verdade, de acordo com sua personalidade e transtorno obssessivo-compulsivo, ela sempre sabe tudo de tudo. Com 70 anos, ela mora em uma casa em bairro nobre da capital. Tem várias qualidades de se admirar; é independente, mão firme, esperta, cheia de disposição e administra todo seu patrimônio, que não é pequeno, sozinha. Vive sozinha também.

Não sei se por conta da infância ou vida dura no país de origem, mas é mão-de-vaca e provavelmente sofre da síndrome de acumulação possessiva. Todos os móveis e pertences de outras propriedades vendidas estão nesta casa onde mora, acumulando. Alguns estão bons, mas há muita coisa no quintal e na casa a ser jogada fora, como duas banheiras velhas enferrujadas que descansam na grama do lado de fora.

A casa é grande, muito boa, mas precisa de uma boa reforma. Os móveis são de madeira de qualidade, mas bem antigos. Junte-se a isso as qualidades de acumulação e sovinice e aí se dá uma receita perfeita para criar insetos e outros bichos. Ela cuida da casa sozinha, o que é realmente um fardo, mas também paga faxineira e jardineiro de vez em quando. É lógico que ele, o jardineiro, não consegue dar conta de um jardim enorme. A janela do meu quarto era quase tomada por um mato alto. Resultado: muitos insetos. Formigas voadoras, baratas voadoras, lagartixas e mosquitos.

Os quartos que eu e Mirsini alugamos são muito bons. As condições é que se complicaram. Em primeiro lugar, a casa é um fortaleza. Explicarei em post futuro a questão da violência na Jamaica, país com um dos mais altos índices de homicídios no mundo. Assim, uma senhora sozinha quer, logicamente, viver em uma fortaleza. Havia cadeados para tudo. O pesado portão da frente se abria automaticamente para os carros, mas nós tínhamos que entrar e sair por um portãozinho para gente muito baixa com um pesado cadeado. A porta principal, de acesso à intocada sala de estar, era trancada e suplementada por grade também trancada por cadeado. Todas as janelas e portas/portões do jardim eram assim. Imaginem a chatice que é viver em uma casa que é uma prisão; é um saco ter que trancar e destrancar cadeados só para poder pendurar roupas no quintal.

A pior dificuldade é a personalidade extremamente difícil da senhora S.. Ela praticamente queria ter controle total sobre tudo. A primeira noite já foi bastante reveladora nesse aspecto. Nem bem cheguei a Kingston, extremamente cansada de uma viagem longuíssima, e ela já queria discutir a situação da cozinha. Foi prometido, pela pessoa do escritório que nos auxiliou nesse processo, que teríamos uma cozinha completa. Mas ao chegar, vimos que a cozinha grande, espaçosa e completa era somente para a senhora S.. Podíamos comer à mesa, mas nada de cozinhar lá e usar todos os utensílios. A nossa cozinha, para quem aluga os quartos, era a área de serviço, completamente não adaptada à nada. A senhora S. simplesmente colocou dois fogareiros lá, umas panelas velhas com teflon corroído e um escorredor de pratos e é isso.

Uma das loucuras maiores é como a senhora S. lida com as coisas. Assim, logo no começo da conversa que ela insistiu para que tivéssemos, logo falou que encontraríamos um meio-termo para agradar a todos. A questão é que é só discurso, no qual ela mesma acredita. Ela não escuta, não dá chance a nenhuma nova ideia e acaba impondo a maneira dela, para tudo. Foi assim que a conversa sobre a cozinha, logo na primeira noite, terminou: com uma certeza na cabeça da senhora S. de que foi magnânima; com uma ponta de frustração e intuição de que a coisa ia ser difícil na minha.

E assim foram todas as outras conversas. Acho que nesse nível deve ser ou doublespeak ou esquizofrenia. Ela se ficava brava com as mais pequenas coisas. Não podíamos deixar copos na mesa da cozinha por um instante. Nem a sanduicheira na bancada – note-se que a cozinha é enorme e a senhora S. mal usa todo o espaço. Não era bagunça. Ela não nos deu chave para o nosso quarto, então Mirsini e eu não podíamos trancar a porta. Por algumas vezes a senhora S. entrou no meu quarto para abrir as janelas! Sim, as janelas eram outra fonte de tensão. Ela queria mandar no quesito abrir ou não as janelas. Ela queria porque queria que deixássemos as janelas abertas o dia inteiro até voltarmos do escritório, pois deixa a casa e o quarto dela, a cinco metros do nosso, ventilados. Concordo e eu também queria deixar as janelas abertas, não fosse o esquadrão de mosquitos neste país forno tropical. Eu era mordida 24 horas por dia, mordidas grandes, ao menos dez/dia. E a mulher nunca colocou redes de mosquitos na janela. Dizia que não precisava. Isso porque há uma epidemia de chikungunya na Jamaica, incluindo Kingston. Há também uma seca que já dura seis meses, então não havia água depois das 9 da noite. Era necessário acordar cedo para tomar um banho decente antes de ir trabalhar. Suor, ao contrário da água encanada, corre 24 horas ao dia.

A queda de energia elétrica também ocorria frequentemente. Ema das noites, a energia acabou cedo, por volta das 7, e não voltou até a madrugada. Eu deitei na cama, relaxei, escutei música. De repente, escuto um barulho, um certo peso leve pousando no chão. Quando vejo, é barata voadora  – estilo dos trópicos, grande, alimentada. Aí lá vem a senhora S. tentar matar a barata, quando eu apenas pedi para que me emprestasse a lanterna e o spray. Tudo no escuro, sem luz. Fui chamada de imatura. Barata morta, deito na cama para dormir. Mas ainda escuto mais do mesmo barulho. Tenho a impressão de ver uma coisinha escura no ar, mas viro para o lado e tento dormir. Quando olho para o espelho, vejo mais uma barata voadora enorme voando contra o objeto. Porta fechada, sem luz, vôo para cima com o chinelo. Eu queira ter o apanhador de insetos da Peta, mas desta vez, não teve solução. Mais uma barata morta e algumas noites dividindo a cama com Mirsini no quarto dela. Na outras noites, foram lagartixas também bem alimentadas que se esconderam na penteadeira onde eu tinha minhas coisas. Aprendi, depois de alguns dias, a tentar ignorar o fato de estarem lá. Na verdade, lagartixas andavam pela minha janela fechada, do lado de fora, todas as noites. Era por isso também que eu não queria deixar as janelas abertas. Mas foi uma queda-de-braço para insistir nisso.

Outra das muitas coisas em que a senhora S. metia o bedelho era a geladeira. Eu e Mirsini a dividíamos com a outra menina que já morava lá, Dana, das Bahamas. A geladeira era usada por nós três de maneira razoável, sem abuso. Era uma geladeira para nós três. Mas a senhora S. insistia em mandar na maneira como nós, usuárias da geladeira, deveríamos usá-la. Queria mandar no que e como colocávamos dentro da geladeira. Não queria farinha na geladeira, por exemplo. Ou seja, as usuárias não podiam decidir democraticamente a melhor maneira de usar a geladeira, mas sim a dona dela, senhora S., é queria usar dessas disposições, um pouco como o mundo funciona. Quando começamos a usar uma nova geladeira, foi o ápice de tudo. A senhora S. comprou gavetas baratas de plástico para que reorganizássemos tudo dentro da geladeira sua maneira – um pouco estúpido, pois as benditas gavetas iriam tomar espaço. Aí que tentamos convencê-la do contrário. Pronto, ficou irritadíssima. Ainda mais porque deve ter gasto uns poucos dólares (EUA) em cada uma, o que foi jogado em nossa cara.

Nos últimos dias, a senhora S. nos disse um par de vezes que sabia que eu e Mirsini não estávamos “confortáveis” em sua casa e que se nós quiséssemos nos mudar, não seria problema para ela – como se tivéssemos que pedir permissão para isso. Enfim, ela estava tentando ser legal. A loucura é que apenas dois dias depois de ter repetido esse mantra, nos chamou para conversar e sumariamente nos expulsou da casa. Disse que ela mesma não estava à vontade em sua própria casa e que os abusos foram muitos. Eu achei uma piada e disse isso. Rolou uma certa discussão, tentamos argumentar que ela não consegue chegar a nenhum meio-termo e quer tudo do jeito dela, um jeito peculiar. Não adianta e fomos sentenciadas como prisioneiros de Guantánamo, que na verdade não tem direito a julgamento nenhum, nem defesa. A senhora S. nos deu cinco dias de aviso prévio. Cinco dias para duas garotas sozinhas na violenta Kingston.

Hoje estamos muito bem, foi um sinal divino para que tomássemos uma decisão. Era tenso morar lá. A senhora S. também não gostava que saíssemos e voltássemos tarde por conta dos inúmeros alarmes. Eu e Mirsini vivíamos aos cochichos, pois era difícil ter privacidade para falar mal da senhora S.

As fotos abaixo mostram o meu quarto.

 IMG_1244A casa, assim como o meu quarto, apesar de grande, era velha com móveis velhos, o que atraía muitos bichos como já dito.

IMG_1247Janela, motivo de conflitos, e também onde as lagartixas passeavam todas as noites

IMG_1246Rides na Jamaica

IMG_1253A cama onde eu dormia, com lençol branco

IMG_1248A penteadeira onde as lagartixas se escondiam

IMG_1254Formigas gigantes voadoras tomando um sol na luminária acima da cama

IMG_1250Banheiro bom, grande

Mais aventuras da Jamaica em posts futuros, mas não deixem de conferir o último post sobre a praia do naufrágio em Zakynthos. É uma praia lindíssima de mar azul neon.

Anúncios

11 comentários sobre “Sem-teto na Jamaica

  1. Coitadinha de vocês!!!! Como conseguiram aguentar essa senhora doida por quase um mês? Mas que senhora maluca! Fiquei apavorada com as formigas gigantes. As lagartixas até acho bonitinhas, mas barata voadora e formiga, tenho pavor!!!! :O

    Deve estar bem difícil o tempo aí, imagina seis meses sem chover! Aqui em São Paulo está muito ruim também. Tenho medo de caminharmos para essa situação também, pois as previsões de chuvas não são nada animadoras…

    Agora vocês estão bem? Dê notícias!

    Super beijo.

    Curtir

    1. Oi Day!

      Sim, estamos bem. Quero escrever mais sobre a Jamaica por aqui, mas está difícil encontrar encontrar tempo. Ando trabalhando muito.

      Haha, não sabia que você tinha medo de formigas. Achei que elas eram o meu menor problema.

      Estou acompanhando de longe o problema da falta d’água em SP. Que terrível.

      Beijos!

      Curtir

  2. Camis, estou de volta!!! E que saudade dos seus posts!!! Todos muito bem escritos e cheios de aventura rs
    Vc nao tem a impressao que certas coisas soh acontecem com a gente? rsrsrs
    Que mulher doidaaaa!!! Mas nem adianta discutir com esse tipo de pessoa, ela com certeza acredita cegamente em suas proprias verdades.
    Mas terminou com uma certa preocupacao….onde estao agora 2 garotas sozinhas na perigosa Kingston?

    Curtir

    1. Oi Pam!!! Amei ver você de volta aqui. 🙂

      Doida mesmo, é assim como você escreveu: acredita somente no que ela acha. Mas essa situação já é coisa do passado. Estou morando agora na casa da minha chefe, HAHA… Ela é representante n.02 do sistema ONU no Caribe.

      A casa é enorme, 6.000 m2!!!! Uma mansão. Moro no piso térreo, e a dona da casa e o filho de 8 anos moram nos outros andares. A janela da sala do piso térreo dá para a piscina e o jardim. O melhor de tudo: não pago aluguel. Ainda vou contar mais nos próximos posts.

      Beijão!

      Curtir

  3. Pingback: Ruas de Kingston e cultura stush |

  4. Camis, que mulher maluca! Complicado chegar em um país estranho com tantas coisas pra se adaptar e ainda ter que aguentar uma ‘control freak’. Espero que vocês estejam em um lugar melhor agora. Beeeijos

    Curtir

  5. Adorei este post…ri de verdade em diversos pontos dele! 🙂
    Já conhecia esta história toda, pois, já falamos disso pessoalmente pelo skype.
    O que gostei muito de ver, foram as fotos do seu quarto, pq dá bastante curiosidade sobre como eram suas coisas.
    E a foto do Ridesssssssss….ounnnnnnn que lindoooooooooooo! Ameiiiii ve-lo! A foto tá uma graça! E ele aparece noutra tb, ao fundo na cama, ao lado da sua!

    Curtir

  6. Pingback: Casa em Kingston |

  7. Pingback: Entregando a tese |

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s