O ano em que perdi tudo em um incêndio

Estou atrasadíssima nos posts – para variar, tenho ruminado a respeito de parar com este blog novamente. Estou sempre ruminando essas ideias, justamente porque fazer um blog que acaba mostrando apenas fotinhos de viagem leva um tempo desgraçado. E, como Cassady, eu conheço o tempo.

Mas por hoje decidi contar um pouco mais sobre um evento daqueles derradeiros na vida, divisor de águas como funeral, morte e parir filho: incêndio. Em agosto do ano passado perdi tudo, a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e tudo em um incêndio na casa onde eu morava em Eksjö, Suécia. O incêndio aconteceu no dia 16 de agosto. Vejam, eu tenho muitas datas importantes que caem em um dia 16: meu aniversário, o aniversário da minha irmã, o dia em que me mudei para a Suécia (outro desses eventos de vida ou morte na vida) e acho que foi até no mesmo dia 16 que eu conheci o Erik em 2009 (mais um).

Era uma manhã de domingo muito cedo, 6 horas. Eu e o Erik tínhamos estado dormindo por duas horas apenas, pois na noite anterior, fizemos uma de nossas festinhas com muita música e bebidinhas. Escuto um homem berrando do lado de fora e penso que deve ser alguém ainda bêbado da noite de sábado. Tinha tido festinha no vizinho também. Mas os gritos são insistentes, aí me assusto um pouco e penso que alguém pode ter invadido algum dos apartamentos.

Até que a batida vem forte na nossa porta. Acordamos de sobressalto, logo nos levantamos. Batem novamente, o Erik abre, é a nossa vizinha Jenny avisando que está rolando um incêndio. Completamente sem noção da gravidade do negócio, eu peço para o Erik fechar a porta porque quero me trocar em paz. Aí sim dá para sentir um cheiro de fumaça. Antes disso, enquanto dormíamos e o fogo comia tudo lá fora, não dava para sentir nada. Bom isolamento.

Enquanto nos trocávamos, soltávamos suspiros de chatice. Pensávamos em como seria chato ter que passar o domingo inteiro fora desde tão cedo. Pensávamos em como não seria nada, talvez apenas uma cozinha pegando fogo, como é tão comum em repúblicas de estudantes, segundo o Erik. Saímos caminhando do casarão. Fomos os últimos a sair de lá, graças à vizinha que nos acordou.

Na rua, vemos um caminhão dos bombeiros, muita fumaça, e os vizinhos que eu mal conhecia ao redor. De início o fogo estava saindo pela janela de um apartamento. Tinha gente de roupão, chinelo… Por sorte era verão.

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Eu mesma saí com a primeira calça e camiseta que vi, e um par velho de AllStar. Levei apenas a minha carteira e o meu celular, além de todos os meus documentos importantes como certificados de antigos empregos etc. É, é super estranho se lembrar de pegar uma pasta dessa se você não pode levar muita coisa em um incêndio. Mas a pasta estava à mão, porque eu estivera procurando emprego nas semanas anteriores. Na minha cabeça, pensei: “Vai que…”. E foi. Perder essa pasta teria sido uma dor de cabeça muito grande, pois toda a minha vida profissional e educacional está lá, nesses documentos. Eu tambem levei uma “to do list” (lista de coisas a fazer) e minhas pílulas naturais contra a ansiedade. Não sei se essas coisas que levei fazem de mim uma pessoa muito louca ou muito chata. Se você precisa salvar alguma coisa de um incêndio, vai salvar justamente a sua “to do list”? Tem que ter muito problema mental mesmo.

Depois de uns cinco minutos que os bombeiros estavam lutando contra o fogo, percebo que umas fagulhas se espalham para o tenhado. Aí começo a me preocupar de verdade, pois parece os bombeiros não estão contendo o fogo. Mas há sempre aquele sentimentozinho lá dentro que diz que vai ficar bem. Surpresa! Esse sentimento nem sempre está certo. Se há algo profundo que eu aprendi com esse incêndio é que as coisas, de fato, acontecem. Eu sei que vocês vão ler e pensar, “nossa, verdade”, “eu sei”. Não sabe, não. A gente não sabe que coisas ruins acontecem conosco jovens até que elas aconteçam mesmo. Hoje tenho essa lucidez de saber que qualquer coisa pode acontecer mesmo, qualquer coisa. Mas aí o tempo passa novamente e a gente perde um pouco dessa lucidez.

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Quando eu começo a me preocupar de verdade, os bombeiros evacuam a área e a polícia nos manda para o hotel da cidade, o único hotel grande na pracinha principal. Lá ficamos, tomamos café da manhã do bufê do hotel, patrocinado pela prefeitura. Às 9 da manhã, fico sabendo que o casarão onde está meu apartamento deve ser sacrificado. Ou já está sendo sacrificado nesse momento. Aí eu chorei, olhando o relógio da torre da igreja bater 9 horas.

 Fiz amizade com a vizinha que bateu na porta. Ficamos à deriva o dia inteiro, gravitando ao redor da nossa rua e do hotel. Era muito difícil sair desses locais, se afastar muito da nossa rua. Era como uma força centrípeta que nos puxava para o epicentro do acontecido. A cidade ficou em comoção. Houve reuniões coletivas no hotel e na igreja. Uma menina de 26 anos faleceu.

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Gravitando em torno do desastre. Foto do jornal Jmini (Jönköpingsnyheter), tirada algumas horas depois do início do incêndio. Erik, eu e a vizinha, Jenny. A chamada da matéria diz “Três jovens se tornam sem-teto”. A gente dá muita risada sempre que vê essa foto.

O casarão onde ficava o meu apartamento e mais o de um monte de gente jovem que morava lá ficava bem no centrinho da cidade, uma área turística, bem privilegiada. O nosso próprio casarão, feito de madeira e já de mais de 400 anos de idade, era uma das principais atrações turísticas de Eksjö, essa cidadezinha conhecida por ser uma das mais antigas e preservadas na Suécia, conhecida pelos seus casarões de madeira, como o que eu morava.

O dia passou assim. Todos os jornais e canais de TV estavam lá, cobrindo o desastre de repercussão nacional. E assim perdi tudo. A prefeitura nos colocou em um albergue bem simples, com uma cozinha coletiva. De lá para cá, não encontramos mais moradia fixa, até pelas circumstâncias mesmo. No albergue ficamos cinco dias, depois nos mudamos para um apartamento ótimo, onde a prefeitura coloca pessoas com problemas com drogas e problemas psicológicos para morar. Então era como o BNH. Um apartamento ótimo, mesmo. Ainda assim não foi oferecido pela prefeitura logo de cara. Foi novamente graças à vizinha, que é assistente social e tem todos os contatos na cidade, que o responsável por essas moradias gentilmente nos cedeu uma para alugar. De lá fui a Portugal. Depois fomos eu e Erik à Itália. Por fim, nos mudamos para um casarão ao pé da floresta, alugado por uma enfermeira que trabalha no mesmo hospital que o Erik. Ficamos nessa casa de outubro do ano passado até março deste ano. Amei morar ao pé da floresta, que divino.

Nossa história saiu no Aftonbladet, um dos jornais mais importantes da Suécia, daqueles bem sensacionalistas, bem Datena mesmo:

http://www.jmini.se/nyheter/36281/tre-ungdomar-blev-bostadslosa

Neste aqui tem vídeo com entrevista comigo e com o Erik:

http://www.aftonbladet.se/nyheter/article21263350.ab

http://www.aftonbladet.se/nyheter/article21269221.ab

Este link já é mais recente, sobre a reconstrução do casarão:

http://www.smt.se/article/hus-byggs-upp-efter-branden-i-gamla-stan/

Os dias seguintes:

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Depois de alguns dias, já não me lembro quantos, acho que uma semana, pudemos entrar no que sobrou do pátio para ver o estado das coisas e ver se teríamos sorte de encontrar algo nos escombros. É bom ver o nível da destruição com seus próprios olhos. Por fora:

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Vista do interior de um apartamento

Por dentro, pátio:

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Agora, a vista do meu apartamento:

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O apartamento ficava detrás dessa varanda
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Apartamento

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A bicicleta, que comprei usada em Lund por uns 50 reais, também sobreviveu:

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Semanas depois, o trabalho já está bem avançado:

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Aproveitem para responder nos comentários: se vocês só pudessem levar três coisas fora a carteira e o celular para escapar de um incêndio, o que seria?

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11 comentários sobre “O ano em que perdi tudo em um incêndio

  1. Dayane Andrade

    Que pergunta difícil! Sinceramente eu não sei o que levaria comigo, além da carteira com documentos e celular. Talvez meu álbum de casamento, algum item que tivesse valor sentimental muito grande ou uma necessaire com itens de higiene..rsrs. Eu te entendo quando fala que só somos capazes de compreender que coisas ruins acontecem, com jovens como a gente, quando realmente passamos por uma situação dessas. Eu não passei por um incêndio para perder tudo, nem imagino como é, mas já passei por grandes sofrimentos em minha vida e sei que jovens sofrem e a vida pode ser muito cruel, mas é preciso seguir em frente e superar para aproveitar o melhor dela a partir desse recomeço. Saudade amiga. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Isso mesmo, Day. Muito engraçado você ter comentado sobre a necessaire, porque isso dá para comprar, né? Apesar de que a necessaire de maquiagem… Perdi uma fortuna.

      O álbum de casamento é de fato o tipo de memória que dói perder. O que fez o Erik sofrer mais foi a perda de todas essas memórias de coisas boas vividas, principalmente no formato de fotos.

      Beijos!!!

      Curtido por 1 pessoa

      1. Dayane Andrade

        Pois é…. vai entende como funciona a cabeça da gente e ao que nos apegamos. Mas acho que só saberia realmente o que iria levar comigo se estivesse na situação. Com certeza as memórias e os itens de valor sentimental são os que mais doem ter perdido. Mas tenho certeza que vocês possuem muitas memórias no coração e essas são as mais valiosas. Beijos.

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  2. Andrea

    Ai Biza, inimaginável realmente. Super triste situação. Não sei se depois disso a gente se desapega ou apega mais ainda. Me desculpe, mas não pude deixar de rir com seu comentário ao pegar a to do list rsrs, tem coisas que marcam nossa personalidade e quem somos rsrs. Eu por exemplo, acho que iria pegar o secador ou tentar arrumar o cabelo antes de sair rsrs.
    Mas como boa bibliotecária, meu celular fica na carteira com os documentos (que mtas vezes, como hoje esqueço dentro do cesto da bike e qdo lembro saio correndo desesperada, ufa que sorte estar na Suécia, a carteira/cel sempre ta lá rsrs). Mas eu pegaria minha bolsa, poxa tem umas roupas que eu gosto mto :-(. Mas agora pensei nesta tal pasta de documentos e a terceira coisa (que não é bem uma coisa) seria minha gata, talvez só desse tempo de pegá-la, já que é arisca e não é fácil pegá-la muito menos qdo vc tem pressa ou ela está amedrontada.

    Puss

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    1. Hehehe que bom que riu, Biza. É para rir mesmo, é melhor. Pois é, certas coisas marcam a nossa personalidade mesmo, ou melhor, a nossa loucura atual. Porque eu ainda acho bem problemático psicologicamente eu ter pegado a to do list, hehe. Eu estava muito louca.

      Eu às vezes também guardo meu celular na carteira e já esqueci minha carteira e bolsa na cestinha da bicicleta na Suécia um milhão de vezes. Sempre tudo bem. 🙂

      Pegar a gata não tem escolha, né? Hehe… Tinha vizinhos com todos os animais, gato, coelho..

      Puss!

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  3. Vinícius da Cunha de Azevedo Raymundo

    Perder o espaço que te serve de lar. Quais situações podem ser mais difíceis que essa? Concordo: não imagino como me sentiria numa situação assim.
    Por outro lado, o importante é que imagino que esse acontecimento negativo levou a outros positivos que possivelmente não aconteceriam. E o inesperado (na maioria da vezes) é uma das melhores coisas da vida.
    Respondendo à pergunta, minhas três coisas além da carteira e do celular: uma pasta que contém todos os documentos importantes, meu notebook, que serve como ferramenta de trabalho e a chave do meu carro.

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    1. Oi Vinícius!

      Que legal te ver por aqui! 🙂

      Obrigado pelo comentário, muito bonito.

      Gostei das coisas que você levaria. Eu levei uma delas também, a pasta com todos os documentos importantes. O notebook quase levei, mas achei que não precisaria…

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      1. Vinícius da Cunha de Azevedo Raymundo

        Esse foi o primeiro post que li.
        Encontrei o blog pelo link no Facebook.
        Se decidir continuar postando, irei acompanhar.

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  4. Camila, antes eu ficava um pco brava qdo eu estava falando algo sério e as pessoas riam, mas qdo li seu post, achei que tinha um tom cômico msm! Não sei se é pq tudo já passou, ou se é algo tão louco que mal dá p/ imaginar como seja de verdade… Respondendo à pergunta, acho q tentaria pegar documentos msm apenas, não tenho nada de extremo valor… Mas tb essa é uma daquelas coisas q só na hora p/ saber. Adorei ver as entrevistas. Sei q pode parecer idiota falar isso numa situação tão grave. Nunca tinha ouvido vcs falarem em sueco. E tb achei vcs tão bonitos. Acho interessante como vc fala as coisas de uma maneira direta, até um pco seca, sem tirar lições etc.
    Bjs, Camis

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  5. Pingback: Resumo da semana – 08/05/16 – Uma pedra no caminho

  6. Pingback: O centrinho antigo de Eksjö antes do incêndio de 2015 – Camila in Thailand

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