Fim da fase Linköping

Sei que já não é novidade para a maioria das pessoas que me conhecem, mas achei necessário fazer este post de fim de fase, fim de uma fase de vida em Linköping, cidade onde morei desde que mudei do Brasil. Confesso que dá uma certa emoção quando penso em Linköping, mas este sentimento é certamente alimentado pelas “memórias de amor” que tenho de lá, não pela cidade em si. Antes de contar mais um pouco sobre a mudança, aproveito para postar algumas últimas fotos que tenho sobre a vida no nosso querido primeiro apartamento. Nessa época, logo depois do Natal, tínhamos bastantes plantas.

Abaixo, estou preparada para atacar o panetone que meus pais me mandaram em uma caixa de Páscoa (todo ano tem caixa de Páscoa; sei que a deste ano já está a caminho). Não gosto mesmo de panetone, mas esse que experimentei era muito bom.

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Esse pequeno objeto verde nas mãos do Erik é meu celular novo, presente do pai dele.

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Depois de minha mudança para Lund, decidimos adiantar a venda do apartamento. Nós compraríamos um apartamento em Malmö, cidade vizinha de Lund, conhecida por alguns como a Berlin da Suécia. O processo de compra e venda de apartamentos na Suécia é bem diferente comparado ao Brasil. Aqui as pessoas quase não fazem nenhuma transação desse tipo sem um corretor, acho que por motivo de segurança, como muitas outras coisas por aqui. Pois bem, contratamos um corretor, e só essa escolha já foi motivo de muitas horas de debate. Antes de escolhido, vários coretores visitaram nosso apartamento e fizeram propostas de preço inicial e comissão. A compra e venda acontece por um sistema de leilão. Começa-se por um preço inicial, e depois as pessoas dão lances. Assim, nunca se sabe por quanto o apartamento vai ser de fato vendido. A comissão do corretor é calculada com base no preço final. Mas como eles são espertos e conhecem muito bem o mercado, as propostas deles (de preço inicial, porcentagem de comissão) sempre parecem baratas, mas no final das contas eles vão ganhar, e bastante. Para se ter uma estimativa de preço pelo qual um apartamento possa ser vendido, é necessário acompanhar o mercado na cidade, no bairro. Checar o preço dos apartamentos que já foram vendidos.

As visitas de potenciais compradores são sempre marcadas e acompanhadas pelo corretor. Duram meia hora, várias pessoas visitam ao mesmo tempo. Geralmente os donos não podem estar no apartamento nesse momento. Mas antes que as pessoas possam fazer a visita, existe todo um processo de styling. Contratamos uma decoradora que mudou todo o estilo do apartamento, trouxe móveis novos, pintou as paredes da cozinha etc., a fim de que pareça um apartamento de revista. Aí um fotógrafo profissional tira fotos do apartamento, às quais vão para o site da corretora e para os folders. Os donos do apartamento ficam com toda a decoração “de revista” até o fim das visitas. Nós só tivemos dois dias de visitas. O mercado de Linköping está uma loucura, parece que todos querem morar lá.

Todo o processo começou em dezembro de 2013, mas só comemoramos de verdade em março, quando todo o negócio estava fechado. Fizemos limpeza inúmeras vezes: para a sessão de fotos, para as visitas, para a mudança final…

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IMG_0340Prateleiras quase vazias

Erik comprou um computador novo também, já que o antigo, usado, já estava bem ruim.

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Assim acaba essa fase Linköping. Vale a pena relembrar alguns posts legais desses anos em Linköping:

A neve e eu

Primavera no Trädgårdsförening

As aventuras de Pitutinho

Cenas do inverno sueco 2011-12 I

Stångån I

Kolonilotter

Linköping: -22C

Cotidiano

 Reencontro

 

 

Ficar velha é uma m****

Mas que título mais direto ao ponto, não? Bom, estou de volta à Suécia depois de uma viagem ao Brasil e naturalmente de volta a este blog. Não sei mais por quanto tempo vai ser interessante contar fatos meio repetitivos já sobre este lugar, mas vamos continuar (pensamentos sobre mudanças estratégicas rondam a minha cabeça).

Este post é mais um daqueles com atualizações dos últimos acontecimentos e últimas reviravoltas. Como devem ter percebido, ou até mesmo porque já contei isto aqui, minha vida é planejada semestralmente, pois meu status de expatriada não me permite tanto mais do que isso. Então vamos às notícias de curto e longo prazo sobre este semestre que se acerca:

1) Estou um caco para ser jogado fora.

Aqui na Suécia eu já tive muitas idas hipocondríacas ao pronto-socorro de Linköping (suspeitas de trombose, ataque cardíaco etc.), mas desta vez estou um caco para ser jogado fora mesmo. Coincidência de nome, acho que tenho quase o mesmo problema que um dos pequeninos, o salsicha Caco.

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Caco está descadeirado como eu.

O Caco está com problemas seríssimos de coluna – cartilagens desgastadas, bico de papagaio – anda com muita dificuldade e está com dor constante. Esta é mais ou menos a descrição do meu estado também. Já não basta uma constipação dos infernos que já dura meses, uma hemorróida interna – sim, estou falando mesmo de constipação e hemorróida, que pessoa fina sou eu – e agora, uma auto-diagnosticada inflamação no cóccix. É o ossinho da bunda. Ou seja, dor na bunda. Uma dor maldita, insistente, intensa. Não consigo andar direito, sentar-me e levantar-me são as tarefas mais difíceis do meu dia, deitar é apenas de lado, arrastando-me na cama. Sério, não consigo me imaginar com 16 anos com problemas como esses. Ficar velha é uma merda. Dói na bunda. Em homenagem a este cenário animador de hemorróidas, constipação e dor na bunda, estão aqui os Rolling Stones com a excelente Mother’s Little Helper, que começa com uma das melhores frases de todos os tempos:

“What a draaaaaaaag it is getting old”

“Things are different today,”
I hear ev’ry mother say
Cooking fresh food for a husband’s just a drag
So she buys an instant cake and she buys a frozen steak
And goes running for the shelter of her mother’s little helper
And to help her on her way, get her through her busy day.”

E tem também “I Don’t Feel Young”, do Wye Oak

2) Eu vou me mudar de Linköping…

… mas ainda não tenho onde morar! O mestrado começa na próxima segunda, 2 de setembro, e eu recebi a grade de horários quando ainda estava no Brasil. O esquema é pesado, há atividades todos os dias, bem tenso. Lá se foi o meu plano de pegar o trem de Linköping a Lund duas vezes por semana. Agora tudo muda: eu com minhas malas para Lund, ao sul da Suécia. Uma nova fase de fato começa.

Eu e Erik passamos o fim-de-semana passado em Lund, procurando quartos para eu morar. Andamos tanto… O novo plano é morar em um quarto, dividir com alguém. Eu passaria a ir para Linköping em alguns fins-de-semana, enquanto ele viria em outros. O problema é que moradia em Lund é coisa mais difícil que entrar para a universidade, que por sinal, está entre as 100 mehores do mundo.

Por enquanto ainda não consegui nada, e a querida amiga Edina me ofereceu um quarto no novo apartamento dela até eu arranjar algo. Ela se mudou para Malmö, cidade a 10 minutos de Lund.

Tenho algumas boas opções, estou esperando respostas… Que ansiedade.

3) Começo o mestrado em uma semana.

É isso. Tenho que me virar em uma cidade completamente nova e ainda me dedicar a esse novo projeto, que vai dar muito trabalho.

4) Vou fazer uma mini-viagem.

Mais uma viagem de fim-de-semana: vou para Copenhagen (Köpenhamn – chopeinrâmn), capital da Dinamarca, já neste próximo fim-de-semana. Vai haver uma comemoração da classe do Erik, afinal este agora é o último semestre do programa. Ele se forma no fim do ano. Como dá para ver no mapa acima, Copenhagen é bem perto de Lund.

Os vira-latas de Linköping

Vira-latas são adoráveis, como todos os outros animais, não? Mas aqui em Linköping, os vira-latas são um pouco diferentes. Eles têm orelhas bem finas e pontudas.  Eles têm pelo bem macio. Eles são dentuços. Eles comem grama. Eles são… coelhos! Ou melhor, lebres. Aqui tem muito coelho solto pela cidade, nem tanto pelo centro, mas sim pelos bairros residenciais, como onde moro. Não sei como pode uma cidade ter coelhos assim, vira-latas, comendo no jardim dos outros, é incrível. Deve ser pelo fato de haver uma floresta próxima, talvez eles venham de lá. Fato é que os vejo quase todos os dias aqui no jardim do prédio. Acho que tem sempre um mesmo que vem aqui, comer as gramíneas. No inverno dá para ver muitas pegadas na neve, muitas mesmo; aí sem tem uma ideia da quantidade de coelhos soltos por aqui. De madrugada é também um bom período do dia para vê-los – aí eles tomam conta da cidade, junto com passarinhos (na primavera, pois no inverno os pássaros são espertos e imigram).

Assim, todos os dias vou à janela para ver se flagro alguma dessas delícias comendo grama bem em frente do prédio.

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Jardim em frente ao prédio, a primavera já havia chegado. Há algo na grama?

Sim, um coelho!

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DSC08225Eles comem bastante.

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Na grama mais verde do vizinho

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Agora são dois.

DSC08232Fugindo

Há mais ou menos um mês atrás, havia uma pata que passou um bom tempo aqui no jardim também. Não sei se ela estava doente, pois os patos vivem no rio, logo abaixo da próxima rua. Ela ficava sentadinha na grama, andava para lá e para cá comendo do chão. Eu acabei levando comida todos os dias que a via, e também água em um potinho. Ela era tão inteligente que logo aprendeu a me reconhecer, aprendeu a reconhecer o meu assobio, os meus beijinhos e a beber a água do potinho. Isso pode parecer fácil para quem tem passarinhos em gaiola, mas patos selvagens não sabem para que servem o potinho. eu fui jogando pedacinhos de pão até ela chegar bem próxima ao potinho. Ela logo percebeu que o pão e a ração para passarinhos eram muito secos. Então ela me ensinou a colocar a comida na água. Um dia ela não voltou mais, mas eu fiquei feliz, pois provavelmente ela se sentiu bem e foi embora. Afinal, patos não vivem em jardim, ela precisa de água para nadar.

Sintam-se à vontade para contar histórias de interação com animais.

Presentes de Páscoa chegam ao fim

Este ano não foi diferente, e recebi uma caixa enorme, de uns oito quilos, com presentes dos meus pais e da minha irmã na Páscoa. Eu amei tudo! Meus pais me mandaram ovos de Páscoa, roupas, sapatos, palmito, farinha de mandioca e outras coisas – sinto muita falta de palmito, que amo, e a farinha é para cozinhar umas coisas deliciosas; não encontro dessa farinha aqui. Minha irmã extrapolou e me mandou dois sacos bombom, um quilo cada, além de leite condensando brasileiro (o daqui é muito bom também) e granulado (o daqui não presta). Quase tudo já chegou ao fim, com exceção do leite condensado. Ainda não fiz brigadeiro. Vou fazer bonitinho, enrolado.

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Acabou

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Eu devo ter comido uns 60% do chocolate. Eu queria aproveitar também, neste post, para mostrar ao menos uma das coisas que minha mãe mandou. Eu sei que quando damos presentes, a maior alegria é ver a pessoa usar.

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Aproveito, também, para colocar uma foto do Erik cozinhado Kung Pao vegetariano (frango xadrez):

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A escola e a minha sala

O trabalho na Infokomp está bem. Não há nada de muito novo acontecendo, a não ser o fato de terem me mandado para Sollentuna nesta semana que passou. Sollentuna é uma região da área metropolitana de Estocolmo, ao norte da capital. Fiquei lá de quinta para sexta, hospedada em um hotel ótimo.

Aqui, o trabalho normal do dia a dia é muito chato e entediante. Eu poderia escrever um post todos os dias para dar vazão a minha frustração, mas seria muito chato. O Erik já atura isso todos os dias. O que eu quero em um futuro próximo, se tiver energia e paciência, é explicar o problema da educação na Suécia. Hoje, tendo sido aluna e professora por alguns anos, posso dizer que capturei a essência de muitos dos problemas dessa área. Por eu ser estrangeira, fica até um pouco mais fácil enxergar o que se passa com a qualidade da educação por aqui.

Este post, porém, não é para criticar negativamente o sistema de ensino sueco. É para mostrar o meu trabalho, a minha sala, a escola onde passo oito horas por dia, de segunda à sexta. A escola é simples, fica bem no centro da cidade mesmo. É uma excelente localização, sempre agradeço aos céus todas as manhãs quando pedalo. Leva em torno de 8 minutos  para chegar lá de bicicleta. Outra vantagem é que tem tudo perto, inclusive o supermercado onde costumo fazer as compras semanais, Hemköp – fica a dois minutos a pé.

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Corredor perto da minha sala. A cozinha dos alunos fica à esquerda.

Esta é a área de convívio dos alunos, onde muitos almoçam todos os dias. Existe algo que eu amo na cultura sueca do trabalho, mas que também é válido para todos os estudantes, que é o hábito de levar marmita. Eu nem sei mais o que é ter que comprar almoço em algum restaurante. A maioria dos locais de trabalho e escolas/universidades oferecem toda a infra-estrutura para que as pessoas possam levar o almoço. Há sempre uma cozinha com micro-ondas, pia, talheres, geladeira etc. Acho fantástico, deveríamos copiar isso no Brasil. As pessoas economizariam muito. É divertido, lógico, sair para comer de vez em quando. Comer besteira no meio de um dia de trabalho é muito legal. Mas aí isso serve para sair da rotina. A regra aqui é trazer de casa. No Brasil precisaríamos de uma mudança muito grande de mentalidade na questão dos demarcadores de status social. Levar comida de casa é considerado “coisa de pobre”, de baixo nível no geral, especialmente se você trabalha em algum escritório de São Paulo. Mesmo que os outros vejam isso como coisa de bóia-fria, por que dar importância, não? É um problema tão grande ser visto como pobre? A questão não é assim tão simples; é complexo falar de status social e da imagem que cultivamos para o outro. Esse é um dos motivos de choque para imigrantes como eu, que viram cidadãos de segunda categoria no novo país. Enfim, assuntos para outros posts, ou muita conversa e café. Para resumir, comecem a levar marmita no Brasil. Eu levaria se voltasse a trabalhar aí. Eu levo minha marmita todos os dias aqui.

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Área de convívio; muitas marmitas; cheira bem no almoço.

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Sala de aula ao lado da minha

Finalmente, a minha sala:

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Uma olhada mais de perto na minha mesa:

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Tudo bem simples, eu mal levei livros, materiais… Deixei tudo aqui, em caixas no subsolo. A vista da janela é bem chata, infelizmente. Não há vista.DSC08101

Ultimamente, os dias estão assim, muito chuvosos. Então essa é a vista de todos os dias:

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O mais legal deste trabalho é que todos me levaram a sério desde o início, diferentemente da outra escola onde trabalhei, onde nem colocaram plaquinha. Aqui eu tenho uma placa com o meu nome ao lado da porta da sala:

DSC08105“Camila Azevedo

Professora

Inglês, distância”

Meu contrato acaba bem no final de junho. Depois disso, pode ser que eu arranje mais um pouco de trabalho no verão (julho), ou não. Pode ser que eu tenha outros planos.

Um novo projeto começa: mestrado

Este semestre está mesmo muito bom em duas áreas, estudos e trabalho. Parece que algo no universo realmente decidiu que estava na hora de eu dar passos maiores em direção a algo – veja bem, “algo” é um pronome indefinido empregado aqui de propósito. Define a indefinição do que vem pela frente, como via de regra desde que me mudei para cá.

Eu não posso honestamente reclamar de falta de avanços. Acho que sempre estive em uma posição ótima na classe em que me encontro, a dos imigrantes. Este ano, por exemplo, consegui meu primeiro contrato de trabalho com salário fixo em tempo integral, que ainda é temporário, vale ressaltar. Outras coisas relevantes já aconteceram, mas nada como o que se deu há duas semanas. A notícia tem que vir agora de lambuja, afinal já enrolei o suficiente e o título já me denunciou. Consegui entrar no mestrado.

Para quem me conhece, começa uma nova fase de muita ansiedade, perfeccionismo e medo. Mas agora é momento de celebrar e vou me permitir me gabar um pouco e explicar por que essa notícia é tão boa.

Desde o último ano do curso de Jornalismo que eu sabia que não queria trabalhar em jornalão, na pastelaria. Este termo é o que o estudante de jornalismo está acostumado a ouvir sobre a indústria da notícia, que é isso mesmo: uma pastelaria que serve qualquer coisa que o cliente pede. Só leia-se cliente, aqui, os anunciantes, não os leitores. Enfim, isso é coisa velha para quem é da lida. Minhas únicas exceções, lugares onde eu trabalharia de graça, eram inatingíveis sem planejamento, e planejar foi exatamente o que não fiz.

Ainda assim, consegui trabalhar na área em um emprego do qual gostava muito, até largar tudo para fugir com o bofiscândalo. Essa segunda fuga das galinhas em minha vida – a primeira foi no emprego anterior a esse – me obrigou a começar tudo de novo. Todo mundo deveria começar tudo de novo muitas vezes na vida.

Na Suécia, o negócio sempre foi trabalhar em empregos temporários conseguidos com esforço e estudar sueco nos enfadonhos cursos de educação para adultos que mais parecem o Mobral. Posteriormente comecei os cursos na Universidade de Linköping, dos quais gostei muito. Pouco depois de chegar à Suécia, eu já sabia que iria aproveitar a oportunidade de fazer um mestrado aqui. A ideia, porém, já vem desde os meus tempos de colegial no Brasil. Eu vinha adiando entrar no processo seletivo por vários motivos, um deles sendo as constantes viagens.

Este semestre o momento para tentar a admissão ficou bem propício, pois este ano o Erik se forma e depois são apenas mais dois até ele terminar tudo e ser considerado pelos outros como Dr. Hellman. Como não sabemos para onde vamos depois que ele tiver absolutamente terminado todas as etapas da formação, eu teria que me inscrever agora, para terminar tudo mais ou menos na mesma época. Então decidi de fato enviar os meus documentos e milhões de cartas de apresentação e escritos acadêmicos para ver seu conseguia entrar. Passei horas, horas e dias, a escrever e escrever cartas acadêmicas em Inglês acadêmico. O Erik leu todas, editou, palpitou, até conseguirmos chegar ao melhor texto para três dos quatro programas nos quais me inscrevi. As cartas não eram os únicos documentos: tive que enviar currículo, referências profissionais e universitárias, uma amostra de algum escrito acadêmico em Inglês (paper) e outros. Um inferno. Mas funcionou e eu estou muito feliz!

Eu me inscrevi em quatro programas (em ordem de prioridade):

1) Master of Science Programme in International Development and Management, Universidade de Lund

(Programa de Mestrado em Desenvolvimento Internacional e Administração)

2) Internatiomal Master’s Programme in Human Ecology: Culture, Power and Sustainability, Universidade de Lund

(Programa Internacional de Mestrado em Ecologia Humana: Cultura, Poder e Sustentabilidade)

3) International Master’s Programme in Environmental Studies and Sustainability Science, Universidade de Lund

(Programa Internacional de Mestrado em Estudos do Meio-Ambiente e Ciência da Sustentabilidade)

4) Master in Applied Ethics, Universidade de Linköping

(Mestrado em Ética Aplicada)

Eu passei na primeira opção. A Universidade de Lund é uma das melhores da Suécia em Humanidades e Ciências Sociais. Esse primeiro programa é muito difícil de entrar. No site do programa, está escrito que de uma média de 1000, são aceitos 40 alunos. E eu fui um desses! Eu não acreditei quando acessei o site do serviço de admissões sueco. Esse mestrado é, para mim, a virada na carreira que eu tanto preciso. O meu objetivo é que, através dele, eu consiga entrar na área de desenvolvimento internacional/sustentabilidade e finalmente trabalhe com algo que eu acredite – já vejo decepções à frente, claro; é muito idealismo.

O programa do coração, como vocês devem ter percebido ao ler as opções, é o segundo, Mestrado em Ecologia Humana: Cultura, Poder e Sustentabilidade, que neste mundo de hoje leva ao nada (área de Sociologia Ambiental, Eco-marxismo e por aí vai).

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Assim acabei colocando esse outro programa como prioridade, por ser algo que ainda pode me permitir estudar essas coisas, mas me levará também a algo mais concreto. Ai essas concessões… Mas agora não é concessão por inteiro; é meia concessão apenas. Uma boa concessão.

Em agosto começo o Master of Science Programme in International Development and Management, que tem um nome bem metido e nem parece algo pelo qual eu me interessaria, mas é na verdade um programa interdisciplinar em desenvolvimento internacional, para pessoas que querem trabalhar com questões como pobreza, subdesenvolvimento etc.

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O terceiro programa, Mestrado em Estudos do Meio-Ambiente e Ciência da Sustentabilidade, é na área da mais nova ciência da sustentabilidade; agora que a ONU inventou esse termo é necessário haver escopo científico.

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A última opção, Mestrado em Ética Aplicada, é um programa do qual já completei um curso (Social and Political Philosophy). Escolhi como alternativa segura, pois sabia que conseguiria entrar. Estaria estudando o que eu já faço todos os dias, pensar demais sobre tudo.

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A universidade fica em Lund, sul da Suécia:

O plano, por enquanto, é ir e voltar de trem, já que o mestrado deve ser apenas umas duas vezes por semana. Há um trem muito rápido, o X2000, que chega em duas horas e meia; há tempo para estudar, ler, dormir, nada do que eu já não esteja acostumada. E já tenho até onde ficar caso necessário, né Edina?

Uma novidade

Quando eu terminei o post sobre o seguro-desemprego, prometi contar uma novidade importante. Para mim, ainda parece novidade, mas é algo que começou já há um mês, no dia 18 de fevereiro: um novo trabalho. Arranjei um emprego para este semestre, dentro daquele plano descrito anteriormente, de encontrar algo mais “confortável”, sem grandes demandas, de escritório, que servisse como fonte de renda enquanto eu busco o que eu quero de verdade.

Estou trabalhando para uma escola chamada Infokomp, novamente como professora de Inglês. Essa escola pertence a uma empresa privada que tem várias outras escolas pelo país. Minha posição é peculiar; eu sou assistente de uma professora na educação à distância de adultos. Essa professora está extremamente sobrecarregada, então a direção decidiu contratar alguém apenas para corrigir as atividades que os alunos enviam pelo sistema. O curso é inteiramente online. Então, à princípio, eu sou meio como uma ghost-writer, mas não assino o nome dela nas correções, claro que não. Aos poucos os alunos vão percebendo que há, na verdade, duas professoras tocando os cursos.

Essa área é basicamente a mesma de antes, quando eu trabalhava na escola Elsa Brändström. É colegial para adultos, Inglês nível 5 e 6 aqui. Quando um aluno termina o colegial, se se formar com boas notas, termina com o certificado de Inglês 6. A diferença no trabalho é que agora eu faço apenas uma dentre as várias atividades que um professor tem. É um trabalho “burocrático”, passo oito horas em frente ao computador e vou à loucura com a repetição da mesma atividade.

Tenho mais ou menos o mesmo tipo de alunos de antes. São pessoas que, por algum motivo, não terminaram essa matéria no colegial daqui. São estrangeiros que não estudaram Inglês no país de origem. São pessoas que se formaram há muito tempo e precisam atualizar o currículo escolar  para poder estudar em uma universidade. Enfim, é um grupo diferente dos adolescentes típicos de colegial. Tenho alunos de muitas partes do mundo, como antes, mas desta vez, há mais suecos também. O nível é bem complicado.

De início, fui contratada para meio meio-período (25%). Aqui na Suécia conta-se a quantidade de trabalho em porcentagem. Assim, fui contratada para 25% (10 horas por semana), mas desde o começo tenho trabalhado período integral, pois há muito o que fazer. Tudo está bem atrasado e há mais alunos novos chegando. A carga de trabalho é absurda mesmo; só em Inglês 6, temos 250 alunos. Como o nível, no geral, não é bom, muitas vezes os alunos têm que refazer as atividades. Trabalho em dobro, triplo.

A empresa me arranjou uma sala em uma unidade bem no centro da cidade, onde há ensino de SFI (sueco para estrangeiros). Eu não poderia estar mais feliz! É uma excelente localização, levo entre 5 e 8 minutos para pedalar até lá. Há tudo por perto, é a melhor localização da cidade. A unidade é simples, e minha sala também; divido com uma outra professora, mas vou precisar de uma só para mim. Como em muitos escritórios aqui na Suécia, há uma cozinha com toda a estrutura que os funcionários precisam para fazer suas refeições: mesa grande, cadeiras, microondas, pia, geladeira, pratos, talheres, copos etc. Aqui há uma cultura fortíssima de levar sua própria comida para o almoço. Isso não é visto como coisa de “bóia-fria” como no Brasil; não é um demarcador de status social. É ótimo.

Ainda não tenho fotos da escola, nem da minha sala, nem da plaquinha com o meu nome e o título “lärare” (professora) , mas vou tirar e postar algumas aqui assim que tiver tempo – artigo bem raro agora. Consegui terminar este post que comecei já na última semana em meio a uns dez minutos de procrastinação.

Mal comecei e já estou um pouco estressada, pois o volume de trabalho é muito grande e eu sinto que não vou dar conta. Sempre acabo caindo no tédio e me sinto muito cansada nas últimas horas, pois é muito difícil fazer a mesmo coisa o dia todo – corrigir lições. Os exercícios variam, mas os erros, nem tanto. Há coisas boas também. Um exemplo é o terceiro exercício do Inglês 5, uma análise de poesia. Eu acabo tendo que ler poesia no trabalho. Bom, né? Aproveito para colocar um aqui:

I know why the caged bird sings

Por Maya Angelou

The free bird leaps
on the back of the wind
and floats downstream
till the current ends
and dips his wings
in the orange sun rays
and dares to claim the sky.

But a bird that stalks
down his narrow cage
can seldom see through
his bars of rage
his wings are clipped and
his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with fearful trill
of the things unknown
but longed for still
and is tune is heard
on the distant hillfor the caged bird
sings of freedom

The free bird thinks of another breeze
an the trade winds soft through the sighing trees
and the fat worms waiting on a dawn-bright lawn
and he names the sky his own.

But a caged bird stands on the grave of dreams
his shadow shouts on a nightmare scream
his wings are clipped and his feet are tied
so he opens his throat to sing

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom

MUTTS by Patrick McDonnll | March 20, 2013

Apesar de já ter começado a reclamar, como de costume, estou muitíssimo feliz de ter encontrado este emprego que se encaixa perfeitamente nas minhas necessidades de agora, sem contar que o salário é muito bom.