Os vira-latas de Linköping

Vira-latas são adoráveis, como todos os outros animais, não? Mas aqui em Linköping, os vira-latas são um pouco diferentes. Eles têm orelhas bem finas e pontudas.  Eles têm pelo bem macio. Eles são dentuços. Eles comem grama. Eles são… coelhos! Ou melhor, lebres. Aqui tem muito coelho solto pela cidade, nem tanto pelo centro, mas sim pelos bairros residenciais, como onde moro. Não sei como pode uma cidade ter coelhos assim, vira-latas, comendo no jardim dos outros, é incrível. Deve ser pelo fato de haver uma floresta próxima, talvez eles venham de lá. Fato é que os vejo quase todos os dias aqui no jardim do prédio. Acho que tem sempre um mesmo que vem aqui, comer as gramíneas. No inverno dá para ver muitas pegadas na neve, muitas mesmo; aí sem tem uma ideia da quantidade de coelhos soltos por aqui. De madrugada é também um bom período do dia para vê-los – aí eles tomam conta da cidade, junto com passarinhos (na primavera, pois no inverno os pássaros são espertos e imigram).

Assim, todos os dias vou à janela para ver se flagro alguma dessas delícias comendo grama bem em frente do prédio.

DSC08227

Jardim em frente ao prédio, a primavera já havia chegado. Há algo na grama?

Sim, um coelho!

DSC08223

DSC08225Eles comem bastante.

DSC08221

DSC08228

Na grama mais verde do vizinho

DSC08235

Agora são dois.

DSC08232Fugindo

Há mais ou menos um mês atrás, havia uma pata que passou um bom tempo aqui no jardim também. Não sei se ela estava doente, pois os patos vivem no rio, logo abaixo da próxima rua. Ela ficava sentadinha na grama, andava para lá e para cá comendo do chão. Eu acabei levando comida todos os dias que a via, e também água em um potinho. Ela era tão inteligente que logo aprendeu a me reconhecer, aprendeu a reconhecer o meu assobio, os meus beijinhos e a beber a água do potinho. Isso pode parecer fácil para quem tem passarinhos em gaiola, mas patos selvagens não sabem para que servem o potinho. eu fui jogando pedacinhos de pão até ela chegar bem próxima ao potinho. Ela logo percebeu que o pão e a ração para passarinhos eram muito secos. Então ela me ensinou a colocar a comida na água. Um dia ela não voltou mais, mas eu fiquei feliz, pois provavelmente ela se sentiu bem e foi embora. Afinal, patos não vivem em jardim, ela precisa de água para nadar.

Sintam-se à vontade para contar histórias de interação com animais.

Anúncios

Presentes de Páscoa chegam ao fim

Este ano não foi diferente, e recebi uma caixa enorme, de uns oito quilos, com presentes dos meus pais e da minha irmã na Páscoa. Eu amei tudo! Meus pais me mandaram ovos de Páscoa, roupas, sapatos, palmito, farinha de mandioca e outras coisas – sinto muita falta de palmito, que amo, e a farinha é para cozinhar umas coisas deliciosas; não encontro dessa farinha aqui. Minha irmã extrapolou e me mandou dois sacos bombom, um quilo cada, além de leite condensando brasileiro (o daqui é muito bom também) e granulado (o daqui não presta). Quase tudo já chegou ao fim, com exceção do leite condensado. Ainda não fiz brigadeiro. Vou fazer bonitinho, enrolado.

DSC08250

Acabou

DSC08253

Eu devo ter comido uns 60% do chocolate. Eu queria aproveitar também, neste post, para mostrar ao menos uma das coisas que minha mãe mandou. Eu sei que quando damos presentes, a maior alegria é ver a pessoa usar.

DSC08246

Aproveito, também, para colocar uma foto do Erik cozinhado Kung Pao vegetariano (frango xadrez):

DSC08249

Um novo projeto começa: mestrado

Este semestre está mesmo muito bom em duas áreas, estudos e trabalho. Parece que algo no universo realmente decidiu que estava na hora de eu dar passos maiores em direção a algo – veja bem, “algo” é um pronome indefinido empregado aqui de propósito. Define a indefinição do que vem pela frente, como via de regra desde que me mudei para cá.

Eu não posso honestamente reclamar de falta de avanços. Acho que sempre estive em uma posição ótima na classe em que me encontro, a dos imigrantes. Este ano, por exemplo, consegui meu primeiro contrato de trabalho com salário fixo em tempo integral, que ainda é temporário, vale ressaltar. Outras coisas relevantes já aconteceram, mas nada como o que se deu há duas semanas. A notícia tem que vir agora de lambuja, afinal já enrolei o suficiente e o título já me denunciou. Consegui entrar no mestrado.

Para quem me conhece, começa uma nova fase de muita ansiedade, perfeccionismo e medo. Mas agora é momento de celebrar e vou me permitir me gabar um pouco e explicar por que essa notícia é tão boa.

Desde o último ano do curso de Jornalismo que eu sabia que não queria trabalhar em jornalão, na pastelaria. Este termo é o que o estudante de jornalismo está acostumado a ouvir sobre a indústria da notícia, que é isso mesmo: uma pastelaria que serve qualquer coisa que o cliente pede. Só leia-se cliente, aqui, os anunciantes, não os leitores. Enfim, isso é coisa velha para quem é da lida. Minhas únicas exceções, lugares onde eu trabalharia de graça, eram inatingíveis sem planejamento, e planejar foi exatamente o que não fiz.

Ainda assim, consegui trabalhar na área em um emprego do qual gostava muito, até largar tudo para fugir com o bofiscândalo. Essa segunda fuga das galinhas em minha vida – a primeira foi no emprego anterior a esse – me obrigou a começar tudo de novo. Todo mundo deveria começar tudo de novo muitas vezes na vida.

Na Suécia, o negócio sempre foi trabalhar em empregos temporários conseguidos com esforço e estudar sueco nos enfadonhos cursos de educação para adultos que mais parecem o Mobral. Posteriormente comecei os cursos na Universidade de Linköping, dos quais gostei muito. Pouco depois de chegar à Suécia, eu já sabia que iria aproveitar a oportunidade de fazer um mestrado aqui. A ideia, porém, já vem desde os meus tempos de colegial no Brasil. Eu vinha adiando entrar no processo seletivo por vários motivos, um deles sendo as constantes viagens.

Este semestre o momento para tentar a admissão ficou bem propício, pois este ano o Erik se forma e depois são apenas mais dois até ele terminar tudo e ser considerado pelos outros como Dr. Hellman. Como não sabemos para onde vamos depois que ele tiver absolutamente terminado todas as etapas da formação, eu teria que me inscrever agora, para terminar tudo mais ou menos na mesma época. Então decidi de fato enviar os meus documentos e milhões de cartas de apresentação e escritos acadêmicos para ver seu conseguia entrar. Passei horas, horas e dias, a escrever e escrever cartas acadêmicas em Inglês acadêmico. O Erik leu todas, editou, palpitou, até conseguirmos chegar ao melhor texto para três dos quatro programas nos quais me inscrevi. As cartas não eram os únicos documentos: tive que enviar currículo, referências profissionais e universitárias, uma amostra de algum escrito acadêmico em Inglês (paper) e outros. Um inferno. Mas funcionou e eu estou muito feliz!

Eu me inscrevi em quatro programas (em ordem de prioridade):

1) Master of Science Programme in International Development and Management, Universidade de Lund

(Programa de Mestrado em Desenvolvimento Internacional e Administração)

2) Internatiomal Master’s Programme in Human Ecology: Culture, Power and Sustainability, Universidade de Lund

(Programa Internacional de Mestrado em Ecologia Humana: Cultura, Poder e Sustentabilidade)

3) International Master’s Programme in Environmental Studies and Sustainability Science, Universidade de Lund

(Programa Internacional de Mestrado em Estudos do Meio-Ambiente e Ciência da Sustentabilidade)

4) Master in Applied Ethics, Universidade de Linköping

(Mestrado em Ética Aplicada)

Eu passei na primeira opção. A Universidade de Lund é uma das melhores da Suécia em Humanidades e Ciências Sociais. Esse primeiro programa é muito difícil de entrar. No site do programa, está escrito que de uma média de 1000, são aceitos 40 alunos. E eu fui um desses! Eu não acreditei quando acessei o site do serviço de admissões sueco. Esse mestrado é, para mim, a virada na carreira que eu tanto preciso. O meu objetivo é que, através dele, eu consiga entrar na área de desenvolvimento internacional/sustentabilidade e finalmente trabalhe com algo que eu acredite – já vejo decepções à frente, claro; é muito idealismo.

O programa do coração, como vocês devem ter percebido ao ler as opções, é o segundo, Mestrado em Ecologia Humana: Cultura, Poder e Sustentabilidade, que neste mundo de hoje leva ao nada (área de Sociologia Ambiental, Eco-marxismo e por aí vai).

cartman-hippies

Assim acabei colocando esse outro programa como prioridade, por ser algo que ainda pode me permitir estudar essas coisas, mas me levará também a algo mais concreto. Ai essas concessões… Mas agora não é concessão por inteiro; é meia concessão apenas. Uma boa concessão.

Em agosto começo o Master of Science Programme in International Development and Management, que tem um nome bem metido e nem parece algo pelo qual eu me interessaria, mas é na verdade um programa interdisciplinar em desenvolvimento internacional, para pessoas que querem trabalhar com questões como pobreza, subdesenvolvimento etc.

wordle

O terceiro programa, Mestrado em Estudos do Meio-Ambiente e Ciência da Sustentabilidade, é na área da mais nova ciência da sustentabilidade; agora que a ONU inventou esse termo é necessário haver escopo científico.

science nature

A última opção, Mestrado em Ética Aplicada, é um programa do qual já completei um curso (Social and Political Philosophy). Escolhi como alternativa segura, pois sabia que conseguiria entrar. Estaria estudando o que eu já faço todos os dias, pensar demais sobre tudo.

damnedifyoudo

A universidade fica em Lund, sul da Suécia:

O plano, por enquanto, é ir e voltar de trem, já que o mestrado deve ser apenas umas duas vezes por semana. Há um trem muito rápido, o X2000, que chega em duas horas e meia; há tempo para estudar, ler, dormir, nada do que eu já não esteja acostumada. E já tenho até onde ficar caso necessário, né Edina?

Uma novidade

Quando eu terminei o post sobre o seguro-desemprego, prometi contar uma novidade importante. Para mim, ainda parece novidade, mas é algo que começou já há um mês, no dia 18 de fevereiro: um novo trabalho. Arranjei um emprego para este semestre, dentro daquele plano descrito anteriormente, de encontrar algo mais “confortável”, sem grandes demandas, de escritório, que servisse como fonte de renda enquanto eu busco o que eu quero de verdade.

Estou trabalhando para uma escola chamada Infokomp, novamente como professora de Inglês. Essa escola pertence a uma empresa privada que tem várias outras escolas pelo país. Minha posição é peculiar; eu sou assistente de uma professora na educação à distância de adultos. Essa professora está extremamente sobrecarregada, então a direção decidiu contratar alguém apenas para corrigir as atividades que os alunos enviam pelo sistema. O curso é inteiramente online. Então, à princípio, eu sou meio como uma ghost-writer, mas não assino o nome dela nas correções, claro que não. Aos poucos os alunos vão percebendo que há, na verdade, duas professoras tocando os cursos.

Essa área é basicamente a mesma de antes, quando eu trabalhava na escola Elsa Brändström. É colegial para adultos, Inglês nível 5 e 6 aqui. Quando um aluno termina o colegial, se se formar com boas notas, termina com o certificado de Inglês 6. A diferença no trabalho é que agora eu faço apenas uma dentre as várias atividades que um professor tem. É um trabalho “burocrático”, passo oito horas em frente ao computador e vou à loucura com a repetição da mesma atividade.

Tenho mais ou menos o mesmo tipo de alunos de antes. São pessoas que, por algum motivo, não terminaram essa matéria no colegial daqui. São estrangeiros que não estudaram Inglês no país de origem. São pessoas que se formaram há muito tempo e precisam atualizar o currículo escolar  para poder estudar em uma universidade. Enfim, é um grupo diferente dos adolescentes típicos de colegial. Tenho alunos de muitas partes do mundo, como antes, mas desta vez, há mais suecos também. O nível é bem complicado.

De início, fui contratada para meio meio-período (25%). Aqui na Suécia conta-se a quantidade de trabalho em porcentagem. Assim, fui contratada para 25% (10 horas por semana), mas desde o começo tenho trabalhado período integral, pois há muito o que fazer. Tudo está bem atrasado e há mais alunos novos chegando. A carga de trabalho é absurda mesmo; só em Inglês 6, temos 250 alunos. Como o nível, no geral, não é bom, muitas vezes os alunos têm que refazer as atividades. Trabalho em dobro, triplo.

A empresa me arranjou uma sala em uma unidade bem no centro da cidade, onde há ensino de SFI (sueco para estrangeiros). Eu não poderia estar mais feliz! É uma excelente localização, levo entre 5 e 8 minutos para pedalar até lá. Há tudo por perto, é a melhor localização da cidade. A unidade é simples, e minha sala também; divido com uma outra professora, mas vou precisar de uma só para mim. Como em muitos escritórios aqui na Suécia, há uma cozinha com toda a estrutura que os funcionários precisam para fazer suas refeições: mesa grande, cadeiras, microondas, pia, geladeira, pratos, talheres, copos etc. Aqui há uma cultura fortíssima de levar sua própria comida para o almoço. Isso não é visto como coisa de “bóia-fria” como no Brasil; não é um demarcador de status social. É ótimo.

Ainda não tenho fotos da escola, nem da minha sala, nem da plaquinha com o meu nome e o título “lärare” (professora) , mas vou tirar e postar algumas aqui assim que tiver tempo – artigo bem raro agora. Consegui terminar este post que comecei já na última semana em meio a uns dez minutos de procrastinação.

Mal comecei e já estou um pouco estressada, pois o volume de trabalho é muito grande e eu sinto que não vou dar conta. Sempre acabo caindo no tédio e me sinto muito cansada nas últimas horas, pois é muito difícil fazer a mesmo coisa o dia todo – corrigir lições. Os exercícios variam, mas os erros, nem tanto. Há coisas boas também. Um exemplo é o terceiro exercício do Inglês 5, uma análise de poesia. Eu acabo tendo que ler poesia no trabalho. Bom, né? Aproveito para colocar um aqui:

I know why the caged bird sings

Por Maya Angelou

The free bird leaps
on the back of the wind
and floats downstream
till the current ends
and dips his wings
in the orange sun rays
and dares to claim the sky.

But a bird that stalks
down his narrow cage
can seldom see through
his bars of rage
his wings are clipped and
his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with fearful trill
of the things unknown
but longed for still
and is tune is heard
on the distant hillfor the caged bird
sings of freedom

The free bird thinks of another breeze
an the trade winds soft through the sighing trees
and the fat worms waiting on a dawn-bright lawn
and he names the sky his own.

But a caged bird stands on the grave of dreams
his shadow shouts on a nightmare scream
his wings are clipped and his feet are tied
so he opens his throat to sing

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom

MUTTS by Patrick McDonnll | March 20, 2013

Apesar de já ter começado a reclamar, como de costume, estou muitíssimo feliz de ter encontrado este emprego que se encaixa perfeitamente nas minhas necessidades de agora, sem contar que o salário é muito bom.

A alegria nunca-vinda do seguro-desemprego

Desde o meu último post sobre este assunto tão caro, trabalho, muitas coisas já mudaram. Tenho muito o que escrever por aqui, mas ando absolutamente sem tempo. Como o título mostra claramente, este post é sobre seguro-desemprego. Mas calma, vocês irão pensar, há algo de estranho nesse título. Nunca-vinda?

Alfa-kassan é o nome de uma das instituições que provêem auxílio-desemprego aqui na Suécia. Desde que eu voltei da Inglaterra que estou às voltas com a minha inscrição nesta instituição. Como todo bom sistema de seguridade social, não falta burocracia. Não tenho certeza se a Alfa-kassan é totalmente pública, mas é uma das principais organizações que paga seguro-desemprego.

Pela primeira vez desde que vim para a Suécia, há a possibilidade de que eu seja elegível a receber esse subsídio do governo. Estou felicíssima, claro. É uma fonte de renda muito boa. Mas não gratuita. O estado sueco tem tentáculos muito longos e alcança seus cidadãos facilmente. Para receber esse dinheiro, é necessário estar registrado na agência de trabalho sueca, Arbetsförmedligen, provar absolutamente todos os passos que você deu em sua vida nos últimos 50 anos, comparecer a maçantes atividades obrigatórias, demonstrar que você está procurando emprego ativamente e acatar as sugestões de oportunidades para enviar currículo, quase sempre ridiculamente distantes de sua formação, experiência e habilidades.

Ainda assim, muito contente, preenchi todos os vinte mil formulários.

DSC08037

E enviei, muito esperançosamente, o envelope:

DSC08039

Já recebi uma resposta bem burocrática, pedindo que eu completasse a inscrição. Há sempre documentos faltando. Aqui há sempre que se registrar tudo muito direitinho. Nada sai das regrinhas na sociedade sueca. Há muita burocracia.

Passei semanas inteiras atrás desses novos formulários, a preenchê-los, imprimi-los e a escrever cartas para o povo do Alfa-kassan, que devem ser é robôs, pois havia incongruências nos requerimentos. Desta vez eles me pediram para:

  • Descrever e provar o que fiz de 01 novembro 2011 a 29 de janeiro 2013
  • Descrever os estudos feitos em 2012 e mostrar que estão concluídos
  • Descrever os planos para estudos em 2013 – não há direito a auxílio-desemprego se você estuda mais que 25% por semana.
  • Descrever e provar o porquê de eu ter deixado meu emprego de garçonete na Inglaterra – será que voltar para o meu apartamento onde moro com meu parceiro no país para onde imigrei há três anos e meio são razões suficientes?

As outras cartas que recebi foram todas neste mesmo esquema. Pediam-me para descrever os meus planos de estudos, porque existe uma regra que não permitem que as pessoas estudem em tempo integral enquanto elas recebem seguro-desemprego. Isso se deve ao raciocínio de que a pessoa deve procurar emprego em período integral enquanto recebe o seguro. Se os estudos ocupam todo o tempo, quando é possível procurar emprego? Assim lá fui eu escrever mais uma carta explicando que não vou estudar este semestre – apesar de eu ter me inscrito e passado em cursos na Universidade de Linköping. Desisti deles para poder receber o auxílio.

O status agora é “aguarde”. Alfa-kassan está esperando respostas da Inglaterra e da Noruega a respeito do meu trabalho nesses países. Agora eu já estou bem mais tranquila. Comecei a escrever este post há bem mais que um mês atrás, então as coisas já mudaram muito. Nem estou pensando mais no seguro-desemprego, dei como caso perdido. É claro que ainda quero o dinheiro das semanas em que estava desempregada, mas é que agora, como disse, as coisas estão bem diferentes… Não vou falar nada por enquanto, isto será o assunto de um próximo post.

Os meus Natais na Suécia (e um pouco de como é o aniversário sueco)

O Natal de 2012 foi diferente dos outros anos. Na verdade, os Natais são sempre diferentes desde que saí do Brasil. Em 2012, o Natal foi mesmo bem branco em Sälen. Já mostrei aqui como o resort de esqui estava afundado em neve. Pois bem, o ano passado teve uma comemoração dupla: Natal e aniversário de 60 anos do pai do Erik, o Bo.

Aniversário

Na Suécia, existe um costume muito fofo, caseiro e de família. Quando alguém faz anos, os membros da família acordam bem cedo – por volta de seis da manhã – para fazer um bolo típico de frutas e chantili para o aniversariante. Todos devem participar, e assim que o bolo fica pronto, é levado ao quarto do felizardo, que acorda ao ouvir o “parabéns a você” em sueco. O mais fofo é que todo mundo conhece esse costume, então nunca é uma surpresa de fato, mas as pessoas não se importam. Acredito que nem todas as famílias ainda façam isso, mas a do Erik sim, sempre que há uma oportunidade.

Essa oportunidade chegou mais uma vez em Sälen. Como dito, era uma ocasião especial e toda a família estava reunida. Assim, de manhão cedinho, fomos eu e Erik até o chalé da Lina, irmã mais velha dele, onde o bolo já estava sendo feito. Pronto, fomos todos acordar o pai do Erik no seu chalé.

DSC07815

Glenn (namorado australiano da Hanna) segura o bolo enquanto Hanna (irmã mais nova do Erik que vive na Austrália) tira uma foto. Erik e Lina estão à esquerda.

DSC07816

Levamos o bolo cedinho.

Ja må hon  leva, a música de parabéns em sueco (infelizmente, a legenda está em japonês):

DSC07822Pai do Erik é “surpreeendido”.

Natal

Os suecos comemoram o Natal no dia 24. Geralmente há um jantar bem cedo, por volta das 5 da tarde. Todos já estão com fome mesmo e escurece cedíssimo, então faz sentido. Há várias comidas e atividades típicas, como assistir a um clipe de desenhos da Disney às 3; tomar glögg; fazer rimas e trocar presentes. No próximo Natal explico melhor esses costumes, pois neste post quero aproveitar para explicar um pouco como eu me sinto nos Natais aqui.

A Valéria, dona de um blog muito legal, o Cinco Coisas, fez um post sobre as tradições de Natal que ela ama, o que me liberou um fluxo de consciência e fez com que eu escrevesse um comentário imenso, o qual compartilho aqui:

“…hoje já não posso escrever que amo o Natal, pois sempre tenho surtos interiores, na alma, nessa data.

Eu amava o Natal quando era mais nova, eu e minha irmã adorávamos sentir o cheiro de Natal no ar, ouvir as cigarras que cantam em dezembro em Santos e sentir aquela noite morna. Tudo era sempre o mesmo todos os anos, Natal com os avós maternos, além de visitas ao resto da família, e Ano Novo com os paternos. Tudo era o mesmo, as comidas, o cheiro delas durante o dia, enquanto minha mãe se matava na cozinha (isso dava ainda mais ansiedade pela noite), os telefonemas dos amigos, os enfeites, montar a pequenina árvore de plástico, a campainha tocando quando meus avós chegavam, os assuntos, os presentes… Tudo igual e tudo está morto. Já não existe.

Meus avós faleceram, com exceção do meu avô materno. Eu me mudei para a Suécia e meus pais nem comemoram mais a data em Santos.

Os Natais na Suécia ficaram como que suspendidos no ar. Eu não sinto que é Natal, entendem? É muito diferente, são outras pessoas, outros costumes, outros assuntos, outra língua, nem a mesa com comidas é motivo de excitação (eu amo comer, vocês sabem), pois não gosto da maioria das comidas. Ovo cozido? Peixe podre? Pão com manteiga? Ainda por cima, os pratos principais não são vegetarianos.

Enfim, eu percebi que algo morreu em mim, mais precisamente que algo foi arrancado. Das vezes que passei o Natal na Suécia, sempre me senti estranha, sem saber o que era. No último eu entendi melhor, que eu basicamente tenho ficado TRISTE nessas épocas, principalmente quando se junta a família. Eu fico triste no Natal e a mesa, que para mim sempre foi importante, é como qualquer outra.

Eu sei o que vocês vão me falar. Que eu deveria começar a minha própria tradição, nova com o Erik, mas eu nem sei o que. Nem enfeites de Natal eu ponho em casa. O único foi uns desenhos de bola de árvore de Natal que eu destaquei do papelão e colei em uma estante. Sabe, destacado do papel de propaganda de loja. A única coisa que eu fiz foi um jantar de Natal para mim e para o Erik, tem um post sobre isso, mas nem foi no dia de Natal.

Enfim, essa data foi extirpada da minha vida, porque para mim, essa data tinha a ver com a repetição circular do mesmo ano a ano. Era disso que eu gostava.”

Não sei se ficou claro, mas é um pouco de como eu me sinto nos Natais na Suécia. O do ano passado, porém, foi diferente. Eu gostei bastante. O pai do Erik havia reservado uma mesa em um restaurante fino e tradicional de lá. Chegamos à casinha linda, super antiga, embaixo de muita neve.

DSC07863

DSC07862

DSC07865

Chegamos e fomos muito bem recebidos com pepparkakor e glögg bem quentinhos.

DSC07873

Todos estavam aproveitando…

DSC07883

Jonas (irmão mais novo do Erik, também bofiscândalo) e Siddy (sua namorada meio sueca, meio islandesa)

As decorações eram lindas…

DSC07886

A mesa estava farta e a comida cheirava bem…

DSC07888

Até um episódio digno da família Rio-Branco acontecer! Pamela, tive que pegar o exemplo da sua família emprestado, hehe. Mas é que fomos para o lugar errado! Só percemos depois que já estávamos fascinados pela casinha linda, no nosso segundo copo de glögg.

Lá fomos todos procurar o lugar certo, já atrasados, tudo branco à frente do carro. Chegamos em um lugar bem diferente, mas ótimo também. Um hotel com um buffet sueco típico de Natal (julbord) maravilhoso, muito bem servido. Eu adoro um buffet, vocês sabem.

DSC07894

Agora, sim, estávamos no lugar certo.

DSC07899

Hanna, Nitchari (esposa do pai do Erik, tailandesa) e Erik

DSC07897

Eu e a julbord atrás (com a camisa portuguesa que amo, minha mãe quem me deu)

O Natal de 2012 foi divertido.

A neve e eu

Aqui na Suécia neve é o que mais vemos no inverno, fora pessoas vestidas de preto. Muitas pessoas me perguntam sobre o inverno e as baixas temperaturas, se é difícil suportá-los. É claro que sim, principalmente pela pouca luz que recebemos aqui nesse período. O pior mesmo é não ver o sol por muito tempo. É o anoitecer às três da tarde. Por outro lado, minha vida está mais ligada às estações do ano, o que é muito interessante. Há uma diferença nas atividades feitas, nas roupas, na hora, no sorriso, na alma, no espírito.

As temperaturas muito baixas não são um problema. Eu devo admitir que adoro ver a página da previsão do tempo cheia de temperaturas negativas de dois dígitos. É tão surreal que se torna uma aventura sentir o toque do frio de -20C no rosto. O que é ruim é ter que vestir o mesmo casacão preto até o joelho por meses a fio. O mesmo se dá com a neve, só que melhor.

Na Inglaterra, minhas amigas não acreditavam quando eu dizia que amava neve. Neve é uma das coisas de que gostei mais aqui na Suécia. Eu amo neve. De verdade. A neve é linda, tudo fica branco e reflete mais luz. A neve traz calma e reflexão. A neve traz o silêncio, mas também o ruído característico dos flocos grandes caindo rapidamente. A neve é divertida, é mais legal caminhar quando há neve nas solas dos sapatos. A neve se acumula e muda a paisagem. O mundo parece totalmente diferente depois de uma tormenta. Eu, sempre curiosa por fenômenos meteorológicos, não saía da janela quando havia tempestade de raios, nuvens carregadas e chuva pesada em Santos quando mais nova. Não mudei e continuo à janela quando começa a nevar, sempre esperando por muita neve.

A neve ruim é aquela já meio negra de sujeira, meio derretida, que deixa as ruas e as calçadas melecadas. Por isso, quem vive em país de invernos rigorosos, sabe que é melhor que esteja mais frio mesmo. Assim a neve não derrete, fica sendo a “neve boa”, aquela que é como areia, só que fria. Gosto de ver os flocos caírem na manga do meu casaco. Gosto de pegá-la e de pisá-la.

Quando está nevando bastante, é difícil não querer dar uma volta no quarteirão para sentir os flocos caírem no rosto e ver a tempestade. No fim-de-semana retrasado, eu e Erik saímos de casa e fomos até o rio justamente para isso. Já mostrei muitas fotos dos invernos cheios de neve nos outros anos, mas ainda não mostrei como é quando está nevando (muito) onde moro. Eu queria tentar registrar os flocos. Ainda daqui de dentro do apartamento, acho que consegui. Não me preocupei em fazer boas fotos, apenas queria mostrar os flocos e a tormenta.

DSC08040

DSC08046

DSC08044

DSC08041

DSC08042

DSC08043

DSC08047

Em frente ao jardim na parte de trás do prédio. Dá até para ver as minhas janelas, as duas do andar de baixo à esquerda:

DSC08066

Cada floco é mesmo diferente um do outro.

muttssnow

DSC08069

Chegamos ao rio, havia poucas pessoas.

DSC08081

Os patos, porém, estão aqui neste inverno.

DSC08072

DSC08073

Eles vivem na neve. É engraçado ver a neve se acumular na casaca deles.

DSC08079

DSC08078

DSC08082

DSC08086

DSC08094

Acima de tudo, é a duração do inverno a verdadeira dificuldade. O inverno aqui não dura três meses, mas em torno de sete, oito. Logicamente, as temperaturas sobem e não há neve durante todo esse tempo, mas tampouco faz calor. A neve ao menos faz tudo ficar bem bonito.